
2 E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio.
3 E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta.”
A morte do polaco Karol Wojtila, o papa João Paulo II, colocou em evidência o efeito aglutinador e pacificador de seu pontificado. Caravanas de estadistas e religiosos de todo o mundo foram ao Vaticano venerar o mais mediatizado e mais popular de todos os papas. O presidente americano George W. Bush, o ex-presidente americano Bill Clinton e outros figurões da Casa Branca ajoelharam-se diante do esquife em reconhecimento da importância do primaz de Roma. Uma comitiva ecuménica brasileira liderada pelo presidente Lula também homenageou o papa e o seu pontificado de 26 anos, o terceiro maior da história.
As imagens do sofrimento do pontífice circularam por todo mundo e despertaram compaixão e simpatia pelo esforço e sacrifício mostrados ao longo de sua vida e mais acentuadamente nos últimos dias. O impacto dessas imagens e o seu poder de arregimentar simpatias e de despertar apoio em prol das causas religiosas de Roma ainda estão para ser avaliadas.
João Paulo II será lembrado como o papa pacificador, reconciliador, um restaurador de feridas. Ele visitou mais de 100 países, viajou mais de um milhão de quilómetros. Conseguiu aproximar da Igreja muitos dos seus inimigos históricos. Por meio de documentos assinados por seu punho, encíclicas e missas especiais, ele tratou feridas milenares e rompeu barreiras que separavam os católicos dos protestantes, judeus, islâmicos, ortodoxos, anglicanos e mesmo da Ciência.
A maior ferida para a qual o pontificado de João Paulo II iniciou um processo de restauração, porém, está para além das questões históricas citadas. A restauração dessa chaga poderá implicar um reposicionamento da Igreja no centro do mundo político e religioso, o que lhe outorgará o poder de moldar costumes, ditar leis universais, impor crenças e ritos, determinar quem deve viver e quem deve morrer. Esta ferida histórica, imposta ao papado pela Revolução Francesa e prevista há dois mil anos no Apocalipse, arrebatou os poderes terrenos das mãos do papado e da Igreja. Mas as imagens de estadistas de todo o mundo ajoelhados perante o papa anunciaram silenciosamente que, a retoma desse poder é iminente.
Para se ter uma visão clara da actuação do papa no tratamento das feridas históricas da Igreja, é preciso lembrar a geografia do poder no final da década de 1970, quando ele assumiu a liderança do catolicismo, repassar algumas de suas atitudes, bem como rever documentos de seu pontificado.
Um mundo divido.
Durante a Idade Média, o papado gozava de elevado prestígio. A Igreja estava no centro da vida. O mundo era um só. O continente europeu era o centro da civilização e a igreja estava no núcleo de todas as decisões envolvendo o poder.
No final da década de 1970, porém, o mundo estava dividido em diversas forças, muitas delas hostis à Igreja romana.
Essa geografia do poder pode ser resumida em quatro aspectos principais: 1) O mundo político estava polarizado entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. A Guerra Fria impunha o pesadelo de uma hecatombe nuclear que poderia destruir o mundo. A Igreja estava à margem do poder político e sem influência de ambos os lados. 2) No cenário religioso, as divisões históricas do cristianismo dificultavam ao papa qualquer acção ecuménica de vulto, já que protestantes, anglicanos e ortodoxos permaneciam separados da Igreja romana. Além disso, o catolicismo amargava uma inimizade ferrenha do Islão desde as Cruzadas, e dos judeus, desde o Holocausto. O crescimento do pentecostalismo era outro factor que pesava contra o catolicismo, já que a renovação carismática no meio católico veio tardiamente. 3) No campo da Ciência, a Igreja fora posta à margem da credibilidade desde a controvérsia com Galileu e desde o lançamento da teoria da Evolução. 4) Internamente, a Igreja sofria as consequências de um clero partido entre conservadores e progressistas, estes divididos em dois grupos: europeus e americanos que buscam aberturas para as questões morais e defendidas pela Teologia da Libertação, desejando empurrar a Igreja para uma revolução social.
Atitudes históricas equivocadas lançaram o catolicismo no vazio de poder, neste mundo dividido.
Desde o século quarto da era cristã, a Igreja assumiu uma postura intolerante e autoritária em relação aos seus oponentes. Essa postura começou a evidenciar-se a partir da conversão de Constantino. Consta que em 312 dC, durante uma batalha o imperador foi surpreendido pela visão de uma cruz no céu. Ele venceu a guerra, atribuiu a vitória ao Deus dos cristãos e tornou-se um deles. No ano seguinte, os cristãos passaram a ter liberdade de culto e, em 321, o domingo foi promulgado com um dia santo, no qual todos deviam deixar as suas actividades e cultuar. Com a morte de Constantino, em 337, o seu filho Teodósio ascendeu ao trono e iniciou uma política de perseguições às outras religiões e aos inimigos da Igreja. A religião tinha dado as mãos ao Estado, que a recomendava, protegia e lutava contra os seus opositores. A Igreja cristã montou-se sobre uma “besta” (símbolo apocalíptico para poder político), capaz de cumprir os seus desígnios e atender à sua vontade.
A queda de Roma, em 476, com a invasão dos bárbaros, possibilitou ao bispo de Roma, já chamado papa, assumir a posição de comando do mundo, o que ampliou grandemente o poder e a influência do papado. O Vaticano tornou-se a única instituição capaz de assegurar ordem num mundo em convulsão provocado pelos bárbaros, os quais inclusive passaram a reconhecer o poder do papado. A igreja acumulou o poder civil, tomou as forças militares, e lançou o mundo na Idade Escura.
O papado fez fortunas com as indulgências e a adesão de todos os nobres. Os pecados de Roma, porém, acumulados juntamente com o ouro. Aos poucos foi minando as bases de seu domínio. Durante séculos o trono da Igreja romana foi ocupado por homens desonestos, aventureiros, depravados, viciados. A instituição que era para ser o retrato de Deus tornou-se o retrato do pecado. Foi esse o caminho que levou a Igreja e o papado ao descrédito e ridículo perante o mundo. No final da Idade Média, iniciava-se uma “ferida de morte” sobre a cabeça da besta, que a levaria ao precipício na Revolução Francesa.
O processo de civilização, colocado em curso na Europa no final da Idade Média, possibilitou à população poder ler e pensar. Houve a Renascença, que recolocou o homem no centro da cultura. Ocorreu a Reforma, que enfraqueceu a Igreja no norte da Europa, e o Iluminismo, que instituiu o critério da Razão como a norma da vida, liquidando a força da Igreja em todo o continente. O povo simples passou a ser instruído, a ver seu valor, seus direitos, sua força. A influência exercida pelos