13/06/2013

QUEM FOI O PRIMEIRO PAPA?


Do primeiro papa até Zefirino: 217 d.C.

 
O primeiro bispo de Roma de que se tem certeza foi Lino, que morreu por volta do ano 67 d.C. depois de ter escrito, segundo o historiador Platino, algo referente à luta de São Pedro com Simão Mago.
Em seguida veio Anacleto, ou Cleto, como alguns preferem, que cuidou dos fiéis romanos por seis anos. Parece que foi ele que dividiu Roma em "títuli" ou paróquias, ordenando os primeiros sete diáconos. Parece que morreu em 71: uns dizem como mártir, outros o negam.
Veio em seguida a Clemente, de quem já falamos bastante nos artigos passados quanto às suas ideias sobre a constituição do cristianismo.
Pouco se sabe da vida dele. Parece que morreu mártir. Assim afirmam Rufino e o bispo Zósimo, embora Eusébio e Gerónimo o neguem. Ireneu deixou escrito que o primeiro bispo romano mártir foi Telésforo.
Por aí o leitor vê a dificuldade de encontrar a verdade histórica desses primeiros séculos. Clemente morreu em 101, quando era imperador Trajano. Sucedeu-lhe Evaristo (101-109) que o "Liber Pontificalis" chama de mártir na perseguição de Trajano. Ordenou seis padres, cinco bispos e dois diáconos.
Então foi eleito Alexandre (109-116). O cardeal Barônio, na sua "Cronologia", coloca a eleição de Alexandre no ano de 121 enquanto a Enciclopédia Mirador o coloca no ano de 109. Alguns autores dizem que o imperador Adriano deu liberdade ao culto cristão, na época do bispo Alexandre.
Como isto foi possível é difícil de explicar, já que Adriano reinou de 117 até 138... Nenhuma cronologia destes primeiros séculos combina! O "Liber Pontificalis" diz que morreu mártir; Sto. Ireneu diz que morreu normalmente em sua cama.
A importância deste bispo romano é ter inventado o ritual da água benta para afugentar o demónio; do pão ázimo e do vinho com água para o ritual da missa.
Mas o cardeal Barônio diz que a água benta, por ser um ritual muito santo, só podia ser inventada pelos apóstolos. E, no entanto, do ponto de vista histórico nós sabemos que a água benta é um antigo ritual pagão dos velhos romanos.
 
Sucedeu-lhe Xisto (117-126). Pouco e muito confuso é o que sabemos dele. Parece que instituiu a Quaresma. Foram-lhe atribuídas duas decretais que começam assim: "Xisto, bispo universal da Igreja apostólica, a todos os bispos, saúde em Deus nosso Senhor; etc."
Mas os historiadores Marino e Baluze provaram tratar-se de documentos apócrifos, forjados séculos mais tarde, para fundamentar a ideologia do poder do bispo de Roma.
Até o historiador padre Pagi afirma tratar-se de documentos falsos pois esse título de "bispo universal" nunca foi usado nos primeiros séculos. Mais tarde os bispos de Roma irão usar outras metáforas como "servo dos servos de Deus".
Sucedeu-lhe Telésforo (126-136), do qual só sabemos que era grego de nascimento e havia morado num convento desde jovem. Sucedeu-lhe Higino (137-141), também grego de nascimento; era filho de um filósofo cujo nome não sabemos.
Exigiu que cada neófito ao ser batizado fosse apresentado por um padrinho ou madrinha. Nesta época houve grande propagação das ideias gnósticas no meio cristão.
Sucedeu-lhe Pio (141-154), do qual nada se sabe com certeza. As notícias que dele temos são muito contraditórias. Sucedeu-lhe Aniceto (154-166), do qual sabemos que era sírio e teve muitas discussões com o bispo Policarpo, discípulo de João Evangelista quanto à data da Páscoa; pois Policarpo, como todos os orientais, queria que fosse celebrada segundo o calendário judaico.
Mas Aniceto não concordou: foi a primeira violação de um costume adotado pelos apóstolos.
Aniceto teve que combater os carpocracianos, que sustentavam que os homens, mesmo cristãos, podiam e deviam gozar todos os prazeres possíveis; que as mulheres deviam pertencer a todos os homens; que não havia ressurreição da carne; que Jesus não passava de mito.
Foi nesta época que os eclesiásticos tiveram que refazer o evangelho original de Marcos porque estes carpocracianos se baseavam em trechos ambíguos deste evangelho (veja meu artigo n° 444, de 21/11/95).
Aniceto foi o primeiro que exigiu dos padres romanos a tonsura, no alto da cabeça, em forma de coroa.
Sucedeu-lhe Sotero (166-175) que, segundo a tradição, exigiu que os recém-casados depois da cerimónia civil fossem tomar a bênção do bispo. É tradição mas não é certo. Provavelmente a bênção do bispo é uma invenção do século XI para salientar o poder eclesiástico.
Note o leitor que se trata de bênção, só. A presença do padre será uma exigência do concilio de Trento, quando se chegará ao absurdo de dizer que o casamento cristão é válido só quando realizado na presença de um eclesiástico autorizado pelo bispo.
Sucedeu-lhe Eleutério (175-189). Nesta época era bispo em Alexandria o célebre Clemente, que escreveu "Strómata", um pequeno tratado de Filosofia Cristã onde, entre outras observações, podemos ler: "Demócrito e Epicuro olhavam o casamento como a principal origem de todos os males; os estóicos consideravam-no um ato sem importância e os discípulos de Aristóteles como o menor de todos os males. Mas nenhum destes filósofos tinha autoridade para julgar ou para apreciar o casamento porque todos se davam às práticas de sodomia."
"Na religião cristã o casamento é uma instituição moral. Ordena-se a conformação do nosso corpo e o mesmo Deus que disse: crescei e multiplicai-vos. (...) O casamento é o germe da família que é a pedra fundamental da sociedade; e os sacerdotes cristãos devem ser os primeiros a dar o exemplo, contraindo uniões sagradas".
"Os nicolaítas e os discípulos de Carpocrates e de seu filho Epifânio pregaram a comunidade das mulheres e cometeram um grande crime perante Deus; são contudo menos culpados dos que renunciam às doçuras do casamento para não aumentar o número dos filhos da humanidade."
"Igualmente condenáveis são os que pretendem que as relações sexuais nos desviam da oração, como é de se condenar Júlio Cassiano que por ódio à reprodução da humanidade chegou a afirmar que Cristo nunca teve mais que as aparências dos Órgãos viris. (...)"
"Todos esses insensatos recusam-se obstinadamente a seguirem os exemplos dos apóstolos São Pedro e São Paulo, que eram casados e coabitavam com suas mulheres e tinham numerosos filhos"... (Não é interessante este trecho escrito cerca de 100 anos após a morte de Pedro e de Paulo?).
Ao bispo Eleutério sucedeu Vitor (189-199), que era natural da África e suscitou novamente a discussão da data da festa da Páscoa escrevendo veementes cartas a todos os bispos do Oriente próximo, ameaçando excomungar quem não aceitasse seu ponto de vista.
Mas esses bispos orientais reagiram com palavras duras pedindo-lhe que ficasse quieto na sua cidade de Roma. Até Sto. Ireneu lhe enviou uma carta, em nome dos cristãos da Gallia, censurando-o por ter mexido na data da Páscoa.
Sucedeu-lhe Zefirino (199-217), que por ser natural de Roma se deixou impressionar pelo cargo de bispo da capital do império e pensou ser uma espécie de imperador espiritual, mas na perseguição de Caracallo fugiu para não ser morto.
Reapareceu quando voltou a calmaria e, para fazer esquecer a sua covardia, perseguiu os heréticos e excomungou os montanistas e, com eles, Tertuliano.
Mas nenhum bispo, no Oriente ou no Ocidente, protestou contra aquilo que Tertuliano havia escrito, isto é: "As nossas Igrejas são todas apostólicas e, todas juntas, formam uma só Igreja. Pela comunhão da paz e pelo mútuo tratamento de irmãos e pelos vínculos de hospitalidade que entrelaçam todos os fiéis".
Para Tertuliano não havia nenhum Primado de bispos romanos: eram todos iguais... E o bispo de Roma Zefirino não reagiu e concordou.
Autor: Carlo Bússola, professor de Filosofia na UFES
Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.

16/05/2013

Foi São Pedro Bispo em Roma?

Não existem documentos históricos da época que atestem que Pedro foi bispo em Roma
O dogma católico é claro: "É objeto de fé católica que por vontade de Jesus, Pedro devia ter perpetuamente um sucessor no cargo de pastor supremo e este sucessor é o bispo de Roma". (B. Bartmann; "Teologia Dogmática" vol. II; Ed. Paulinas; SP; 1964; pág. 481).
Com efeito, o Concilio Vaticano I decretou isto na sessão 4, C.2. Este decreto inclui um ponto dogmático: que o apóstolo Pedro sempre terá um sucessor; e um ponto histórico: que o bispo de Roma é o sucessor de São Pedro.
Os teólogos [católicos] provam o primeiro ponto pelo fato de que a Igreja de Jesus, sendo eterna, terá eternamente alguém que cuide dela e este só poderá ser o sucessor de São Pedro. Também os teólogos provam o segundo ponto dizendo que Pedro foi bispo em Roma, onde morreu mártir, deixando um outro bispo como seu sucessor.
O primeiro ponto ainda hoje é muito questionado. Os católicos afirmam e os racionalistas negam; ainda mais, dizem que nas palavras de Jesus nunca aparece a suposta figura do sucessor. O que interessa, agora, é saber se realmente Pedro esteve em
Temos quatro escritores que nos relatam que na sua época havia uma tradição que afirmava que Pedro tinha estado em Roma; são eles: Orígenes no III século; Lactâncio e Eusébio, ambos no IV século; Gerónimo, no V século.
 É importante frisar que se trata de historiadores que viveram 300-400 anos depois de São Pedro e que relatam "tradições".
Orígenes (que morreu 187 anos depois da morte de São Pedro) costumava dizer que "Pedro foi crucificado em Roma de cabeça para baixo, a pedido seu" (Eusébio; II; 25. Veja também: Eusébius; "Eclesiastical History"; New York: 1839).
Lactâncio (que morreu 258 anos depois da morte de São Pedro) opina (isto é: acha) que Pedro foi a Roma no tempo do imperador Nero (veja: Lactantius: "De mortibus persecutorum"; 2. Veja também: Lactantius; "Works", em "Ante-Nicene Christian Library"; vols. XXX-II; London; 1881).
Gerónimo (que morreu 353 anos após a morte de São Pedro) diz que Pedro chegou em Roma no ano 42 d.C. (Shot-well J. And Loomis L.; "The see of Peter";Columbia U.P.;1927; pg. 64-65).
Eusébio (que morreu em 340, isto é: cerca de 270 anos após a morte de São Pedro, no começo do III livro da "História Eclesiástica" escreve: "Parece (note-se este "parece"!) que Pedro tenha pregado o evangelho aos judeus da dispersão e por fim foi para Roma, sendo lá crucificado de cabeça para baixo".
E acrescenta algo importantíssimo: "Depois do martírio de Pedro e Paulo, Lino foi designado como primeiro bispo de Roma".
Então, se Lino foi o primeiro, Pedro era apenas, "visita" e não bispo de Roma!
O historiador Peter De Rosa em seu livro "Vicars of Christ" (London; Bantan Press; 1988) à página 15 diz que segundo vários autores Pedro só teria chegado em Roma nos últimos anos de sua vida e a sua função de bispo não passa de uma lenda; prova disto é que seu nome não aparece nas listas mais antigas da sucessão episcopal.
Mas precisava dar vida e força a uma lenda para fundamentar a ideologia do poder, afirmam os racionalistas... É o que veremos mais adiante. O que nos interessa agora é a história de Pedro em Roma.
A arqueóloga romana Margherita Guarducci, professora de Epigrafia e Antigüidades Gregas na Universidade de Roma, que trabalhou junto a outros arqueólogos nas escavações feitas na Basílica de São Pedro para encontrar os restos mortais do apóstolo Pedro, escreveu dois artigos na revista internacional "Trinta dias na Igreja e no mundo", precisamente: fevereiro-1990, pg. 40-45 e agosto-1991, pg. 66-69.
O que vou relatar aqui é o resumo desses dois artigos.
Papa Pio XII "superando o receio e o acanhamento de seus predecessores" ordenou as escavações sob o altar-mor da Basílica de São Pedro. Infelizmente as escavações foram comprometidas pelo uso de ferramentas inadequadas e pela ausência de rigor científico e falta de coesão entre os arqueólogos.
Todavia, o local do túmulo foi encontrado em 1950 e Pio XII deu a notícia ao mundo. Apressadamente. Apressadamente, pois os ossos de Pedro não haviam sido encontrados. As obras pararam.
Dois anos mais tarde, em 1952, a arqueóloga Margherita Guarducci reiniciou as buscas e encontrou no muro do túmulo a inscrição em grego "Petrós ení" (Pedro está aqui); mas os ossos não estavam...
Somente em 1953 foi encontrado, numa caixa de madeira, parte de um esqueleto que examinado por antropólogos revelou pertencer a um só indivíduo de sexo masculino, de cerca de um metro e sessenta e cinco de altura, de constituição robusta e de idade entre 60 e 70 anos. A ossada estava envolvida em precioso manto de púrpura bordado em ouro.
A descoberta provocou toda uma série de contestações dentro e fora da Igreja Católica.
A arqueóloga comunicou oficialmente a descoberta a Paulo VI, que lhe disse: "A senhora não sabe quanta alegria me dá!... Aqueles ossos são como ouro para nós!" E comprometeu-se a dar logo o anúncio numa sessão do Concilio Vaticano II. Mas o anúncio não foi dado.
Certamente foi pressionado a esperar mais, talvez porque isso poderia aborrecer os protestantes, que sempre se pronunciaram contra essa tese.
Finalmente no dia 26 de junho de 1968 Paulo VI anunciou publicamente que os restos mortais de São Pedro haviam sido encontrados debaixo do altar-mor da Basílica de São Pedro. Aos poucos, porém, tudo foi esquecido.
A Santa Sé proibiu que a arqueóloga Margherita Guarducci visitasse os subterrâneos. Dez anos mais tarde, querendo completar seu livro "Pedro no Vaticano" com fotografias tiradas no local, ela soube que não poderia fotografar nada. Recorreu aos cardeais A. Casaroli e J. Ratzinger [atual papa, Bento 16] que queriam ajudá-la; mas não conseguiu nada!
Quando Paulo VI morreu, o silêncio voltou a reinar absoluto sobre as descobertas. 0s guias que acompanham os peregrinos aos subterrâneos não sabem nada ou estão proibidos de falar sobre as descobertas. Alguns até "dizem que a autenticidade dos ossos não foi confirmada" (30 dias, etc; fev. 1990; pg. 45; III Col.)
Então Pedro esteve, ou não, em Roma? A citada revista (que é ultraconservadora) no número de março 1996, pg. 50, escreve: "Todavia enquanto sobre Paulo temos notícias mais precisas (...) quanto à presença de Pedro em Roma não possuímos testemunhas de contemporâneos".
Por isso, acrescenta, "é difícil afirmar quando Pedro chegou em Roma. O certo é que Pedro não ficou ininterruptamente em Roma já que em 49 o encontramos em Jerusalém".
Tudo não passa de "tradição"... disse que disse... Por isso os racionalistas dizem que provavelmente Pedro veio a Roma como "visita", jamais como bispo.
A tradição nasceu numa época que representava o momento melhor na história da Igreja: o imperador Constantino, amigo do papa Silvestre I, bispo de Roma; em seguida: Teodósio e Justiniano.
Era o momento histórico único para colocar as bases da ideologia do poder eclesiástico romano.
Autor: Carlo Bússola, professor de Filosofia na UFES
Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.
Comentários do IASD Em Foco
Sabemos que há muitos cristãos sinceros entre os católicos – com os quais o Espírito Santo tem trabalhado e pelos quais temos orado diariamente – e, quando falamos isso, nos referimos tanto aos membros, leigos, como ao clero desta Igreja.
Agora, embora seja bastante difícil e até doloroso admitir isso – como o foi para Martinho Lutero, que era padre e teólogo católico, e para milhões de outros cristãos egressos do catolicismo através dos séculos – toda a base desta Igreja foi construída em cima de imposturas, falsos testemunhos, adulteração dos fatos, mentiras e desvios doutrinários.
Até mesmo quanto à tradicional e arrogante alegação feita pelos líderes e membros de que a Igreja Católica Apostólica Romana é a primeira e única Igreja instituída por nosso Senhor Jesus Cristo, como se pode ver claramente a partir desta criteriosa obra de pesquisa documental do Professor Carlo Bússola, a sua fragilidade e/ou total inconsistência vem à tona com força; ela torna-se evidente e patente, quando confrontada com a pregação, testemunho e estilo de vida dos primeiros (cristãos) seguidores de Cristo.
Nesse sentido, a Bíblia é clara e taxativa: “... aquele que diz que permanece nEle [é cristão], esse deve andar assim como Ele andou” (I João 2:6).
O próprio Cristo torna isso claro ao definir em termos espirituais quem são e como agem, de fato, os Seus verdadeiros irmãos, a Sua verdadeira família, aqui na Terra: “Falava ainda Jesus ao povo, eis que Sua mãe e Seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem falar-Te. Porém Ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de Meu Pai celeste, esse é Meu irmão, irmã e mãe” (Mateus 12:46-50).
Dessa forma, a verdadeira sucessão apostólica é encontrada tão-somente naqueles que vivem e ensinam a doutrina dos apóstolos. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (Isaías 8:20).

03/05/2013

O Imperador Constantino e Mudanças no Cristianismo

Visão de Constantino - Rafael Sanzio
É o dia 27 de outubro do ano 312 depois de Cristo. Dois exércitos se defrontam às portas de Roma. O primeiro sai dos Muros Aurelianos para posicionar-se ao longo das margens do Tibre, junto a Ponte Milvio. É comandado por Marcos Aurélio Valério Maxêncio. O segundo, que desceu de Trier (na Alemanha) rumo a Roma, se coloca ao longo da via Flaminia. É guiado por Flávio Valério Constantino. Os dois contendores lutam pelo título de Augusto do Ocidente, um dos quatro cargos supremos, na Tetrarquia, o novo sistema de governo do Império, ideado por Diocleciano.
O sol começa a se pôr quando as tropas de Constantino vêem repentinamente surgir no céu um grande sinal luminoso, com uma frase chamejante:  In hoc signo vinces (com este sinal vencerás). Eusébio de Cesareia, o primeiro grande histórico da Igreja recorda o acontecimento com estas palavras: "Um sinal extraordinário aparece no céu. … quando o sol começava a declinar, Constantino vê com os próprios olhos, no céu, mais acima do sol, o troféu de uma cruz de luz sobre a qual estavam traçadas as palavras IN HOC SIGNO VINCES. Foi tomado por um grande estupor e, com ele, todo seu exército." EUSEBIO, Vita Constantini, 37-40.
Constantino é a prova histórica de que o cristianismo primitivo só tinha poder eclesiástico.
O começo da queda do império romano começou com Constantino levando a capital para Bizâncio e os bárbaros invadindo o império.
Depois da abdicação de Diocleciano e Maximiano, Flávio Constâncio Cloro e Galério Maxímino dividiram entre si o império. Constâncio Cloro recuperou a Bretanha, derrotou 60 mil alemães e edificou a cidade de Spira.
Assim dominava a Inglaterra, e a Bretanha até a Dalmácia e às províncias orientais. Era um homem sóbrio e honesto. Gostava dos cristãos que tratava como amigos mesmo quando se recusavam sacrificar aos deuses romanos.
Constâncio Cloro morreu em York tendo antes proclamado imperador e seu sucessor o filho Constantino. Nesta mesma época quem dominava em Roma, na Itália e na África era Maxêncio, um homem de uma avareza insaciável e de uma devassidão e crueldade pior que Nero. Embriagava-se frequentemente e o vinho o tornava louco furioso. Nestas horas mandava mutilar os próprios amigos.
Era evidente que a guerra devia explodir entre Maxêncio e Constantino. Mas houve apenas começo de guerra, pois Maxêncio morreu afogado no Tibre numa armadilha que havia preparado para Constantino. Então, vencido Licínio, marido de sua irmã, Constância, Constantino tornou-se o único senhor do império.
Quem era Constantino? Segundo os cristãos era um santo, uma vez que em 313, no Edito de Milão, havia ordenado por lei que a religião cristã fosse livre e respeitada. Segundo Julíano, o apóstata, era um diabo cheio de orgulho e de ódio.
Na realidade temos que reconhecer-lhe a inteligência, a coragem e a prudência que lhe permitiram ser o senhor de todo o império romano do Ocidente, do Oriente e da África do Norte, por mais de 30 anos! Mas também foi suficientemente cruel e frio quando se tratava de interesses pessoais...
Mandou matar seu filho Crispo pela simples acusação da madrasta. Mandou sufocar no banho sua mulher Fausta. Mandou matar Liciniano, que era inocente dos crimes de Licínio, seu pai. Estes e muitos outros crimes de aparência política, ele os achava necessários para "proteger-se dentro de casa", como dizia...
Mas certo dia, quando estava entrando no templo de Júpiter para oferecer sacrifícios e purificar-se, o grande sacerdote barrou-lhe o caminho dizendo-lhe que os deuses não o perdoavam...
Foi então que alguém lhe fez observar que o batismo cristão perdoa todos os crimes cometidos anteriormente. Anteriormente? Sim, anteriormente!
Foi assim que Constantino resolveu adiar o batismo para o último dia de sua vida, já que outros homicídios políticos estavam previstos... Se isso é história ou lenda, é impossível saber. O que se sabe é que ainda matou gente e no fim da vida pediu o batismo.
Mas um outro fato estava acontecendo: o Oriente próximo estava se tornando a porta de entrada no império para multidões de bárbaros.
Em 254, os Marcomanos invadiram a Panónia e o norte da Itália. Em 255 os godos entravam na Dalmácia e na Macedónia; os citas, na Ásia Menor; os persas, na Síria; em 257 os godos invadiram o Bósforo e entraram no Ponto; em 258 conquistaram a Calcedónia, Nicomedia e Nicéia; em 259 os alemanos invadiram a Itália; em 260 o imperador Valeriano foi preso pelos persas. Os bárbaros haviam-se apercebido da fraqueza de Roma.
Já Roma, com a recusa do perdão dos deuses, não agradava mais Constantino e assim ele resolveu levar a capital do império para Bizâncio que, em 330, transformou numa esplêndida cidade que chamou de Constantinopla ou Nova Roma, fundando ali uma universidade e uma sede patriarcal onde o bispo tivesse seu lugar de honra primacial no Império. (Daí a luta entre o bispo de Roma e o de Bizâncio).
Parece que a promessa de que o batismo o purificaria de todos os seus pecados criou em Constantino um sentimento de benevolência para com os cristãos.
Mas ele não se apercebeu que Roma, livre do imperador, estava transferindo para o seu bispo a antiga primazia mundial (veja o caso de Atila!): uma primazia religiosa que se transformará brevemente em primazia política.
E este será mais um motivo de rivalidade entre o bispo de Roma e o bispo de Constantinopla: uma

24/04/2013

É A VIRGEM MARIA CO-REDENTORA?


A santa e humilde Maria nunca desejou tomar o lugar do Salvador, do Filho de Deus. A sua posição foi de serva ciente de sua missão, a missão de trazer à luz a Luz do mundo, o Pão da vida, o Verbo de Deus. Até nas suas palavras a mãe de Jesus foi discreta. O registo mais extenso das palavras por ela pronunciadas está em Lucas 1.46-55, sob o título "O cântico de Maria." Nessa oração, como já vimos atrás, Maria se mostra muito feliz e agradecida a Deus por haver sido agraciada com tão nobre missão: "Pois olhou para a humildade da sua serva. Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada". Nos versículos 46 e 47, Maria se declara necessitada de salvação: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador".
Não se encontra nas Escrituras qualquer tipo de adoração a Maria, ou qualquer ensino nesse sentido. Muitas pessoas interpretam mal o título "Bem-aventurada". Uma pessoa bem-aventurada quer dizer uma pessoa feliz, ditosa e bendita. É o estado "daqueles que, por seu relacionamento com Cristo e com a sua Palavra, receberam de Deus o amor, o cuidado, a salvação e sua presença diária. O arcanjo Gabriel disse: "Bendita és tu ENTRE as mulheres", e não bendita ACIMA das mulheres. A mesma declaração foi feita por Isabel a Maria acrescentando: "... e bendito o fruto do teu ventre" (Lucas 1.42). E a própria Maria afirmou que "desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada" (Lucas 1.48b).
Jesus, no "Sermão da Montanha", chamou "BEM- AVENTURADOS" os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça e os perseguidos por causa dele (Mateus 5.3-11). E bem-aventurada é Maria em razão da missão a ela confiada. Então, os salvos somos bem-aventurados, isto é, somos felizes porque agraciados com bênçãos de Deus. Não há a menor possibilidade de, após a nossa morte – a morte dos bem-aventurados - chegarmos à condição elevada de Senhor ou Senhora, Pai ou Mãe de todos. Vejamos o que diz a Bíblia:
"Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor"; "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força. Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração." (Deuteronómio 6.4-5-6). Este mandamento foi confirmado por Jesus, quando afirmou que não existia outro mandamento maior do que este (Marcos 12.30-31), porque quem ama cumpre a Lei Moral. Ora, um coração completamente cheio do amor a Deus não possui espaço para adorar outros deuses, seja "senhor" ou "senhora", ou qualquer pessoa falecida. Ademais, fazer pedidos aos mortos e acreditar que eles sejam mensageiros de Deus, faz parte da doutrina espírita.
"Eu e a minha casa serviremos ao Senhor... nunca nos aconteça que deixemos ao Senhor para servirmos a outros deuses" (Josué 24.14-16). Devemos confiar no Senhor e somente a Ele dirigir nossas súplicas. Em nenhuma parte da Bíblia a santa Maria é elevada à posição de Senhora, Padroeira, Protetora ou Co-Redentora. Nenhum homem ou mulher pode, depois da morte física, receber tal sublimação. Quem morreu em nosso lugar foi Jesus, e Ele não divide a sua obra redentora com mais ninguém: "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (Atos 4.12). "Eu sou o Senhor; este é o meu nome! A minha glória a outrem não a darei, nem o meu louvor às imagens de escultura" (Isaías 42.8).
Mas, pela palavra da Tradição, Maria cooperou na obra do Salvador e hoje, no céu, é instrumento de salvação: "Mas seu papel em relação à Igreja e a toda a humanidade vai mais longe. De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do

22/03/2013

Do Primeiro papa até Zeferino: 217 d.C.

Esses primeiros bispos romanos são todos de uma insignificância muito grande
O primeiro bispo de Roma de que se tem certeza foi Lino, que morreu por volta do ano 67 d.C. depois de ter escrito, segundo o historiador Platino, algo referente à luta de São Pedro com Simão Mago.
Em seguida veio Anacleto, ou Cleto, como alguns preferem, que cuidou dos fiéis romanos por seis anos. Parece que foi ele que dividiu Roma em "títuli" ou paróquias, ordenando os primeiros sete diáconos. Parece que morreu em 71: uns dizem como mártir, outros o negam.
Veio em seguida a Clemente, de quem já falamos bastante nos artigos passados quanto às suas ideias sobre a constituição do cristianismo.
Pouco se sabe da vida dele. Parece que morreu mártir. Assim afirmam Rufino e o bispo Zósimo, embora Eusébio e Gerónimo o neguem. Ireneu nos deixou escrito que o primeiro bispo romano mártir foi Telésforo.
Por aí o leitor vê a dificuldade de encontrar a verdade histórica desses primeiros séculos. Clemente morreu em 101, quando era imperador Trajano. Sucedeu-lhe Evaristo (101-109) que o "Liber Pontificalis" chama de mártir na perseguição de Trajano. Ordenou seis padres, cinco bispos e dois diáconos.
Então foi eleito Alexandre (109-116). O cardeal Barônio, em sua "Cronologia", coloca a eleição de Alexandre no ano de 121 enquanto a Enciclopédia Mirador o coloca no ano de 109. Alguns autores dizem que o imperador Adriano deu liberdade ao culto cristão, na época do bispo Alexandre.
Como isto foi possível é difícil de explicar, já que Adriano reinou de 117 até 138... Nenhuma cronologia destes primeiros séculos combina! O "Liber Pontificalis" diz que morreu mártir; Sto. Ireneu diz que morreu normalmente em sua cama.
A importância deste bispo romano é ter inventado o ritual da água benta para afugentar o demónio; do pão ázimo e do vinho com água para o ritual da missa.
Mas o cardeal Barônio diz que a água benta, por ser um ritual muito santo, só podia ser inventada

15/03/2013

Sto. Agostinho: a Teologia Como Base do Poder Político Eclesiástico

No livro “A Cidade de Deus”, Agostinho dá a entender que a Igreja é a única representante de Deus na Terra

Para entender o pensamento de Sto. Agostinho lembramos uma particularidade histórica de valor fundamental: até o século IX ser bispo cristão ou mesmo ser um fiel cristão, não significava estar em comunhão com o bispo de Roma.
Essa "comunhão" é uma invenção muito tardia no cristianismo; além do mais, a autoridade e o valor eclesiástico de um bispo qualquer não eram maiores do que aquilo que tem um padre (vigário) qualquer da nossa cidade, com exceção do poder político do bispo de Roma que representava na Itália o imperador que vivia no Oriente.
 
Era-se cristão pela adesão aos decretos dos grandes concílios: de Nicéia (325) em primeiro lugar; mas também de Constantinopla (381) que tratou do Espírito Santo; de Efeso (431) que condenou o nestorianismo e o pelagianismo; de Calcedônia (451) que afirmou que Jesus tinha uma natureza humana e uma natureza divina unidas na única pessoa do verbo; e de Constantinopla II (553).
 
Os bispos eleitos costumavam escrever uns para os outros afirmando sua fé e lealdade aos decretos dos concílios. Os bispos de Roma faziam a mesma coisa: mandavam e recebiam cartas de outros bispos.
Daí o erro de muitos historiadores católicos que imaginam serem estas cartas romanas documentos comprobatórios do "primado": erro imperdoável porque distorce a verdade.
Voltemos a Sto. Agostinho (354-430) nascido no norte da África, numa terra que era uma mistura de raças (númida; púnica; romana) e uma mistura de religiões (orientais; egípcios; pagãos romanos e cristãos).
O "púnico" é a antiga língua da Fenícia cuja cultura sobrepujava em Cartago. Leia-se o interessante romance histórico "O Cartaginês" de Manáf Hardan; Ed. Edicon; SP; 1985.
Mas não deixe de ler também J. Mac Cabe: "St. Augustine and his Age"; London; 1926;