14/11/2012

A Papisa Joana e Outras Sacerdotisas


Se a ideologia do poder eclesiástico não fosse uma história de machos, haveria um bom lugar para Joana. Esta ao que parece na cronologia papal aparece com o nome papa João VIII.
Foi um monge irlandês, Marianus Scotus (1028-1086) que escreveu, primeiro, a vida da papisa Joana. Esse monge irlandês passou os últimos 17 anos de sua vida na abadia de Mainz, a mesma cidade alemã que cerca de 200 anos antes, viu nascer Joana.
Marianus escreveu "História sui temporis clara'', que podemos encontrar em "Rerum Germanicarum Scriptores aliquot insignes", na edição de J. Pistorius, do ano de 1725.
Referindo-se ao ano de 854, Marianus escreve: “o papa Leão morreu nas kalendas de agosto e foi sucedido por Joana, uma mulher, que reinou durante dois anos, cinco meses e quatro dias".
Um outro historiador, Martinus Polonus, padre da Ordem Dominicana, que nasceu em Troppan (Polônia) no século XIII mas viveu o resto de sua vida em Roma como capelão e penitenciário papal, escreveu: "Chronica Pontificoram et Imperatorum", que podemos encontrar em "Monumenta Germaniae Histórica", da editora J. Pistorius, do ano de 1725.
 
Nessa "Chronica" lemos: "Depois do papa Leão veio João Anglius, nascido em Mainz, que foi papa durante dois anos, sete meses e quatro dias e morreu em Roma após o que houve uma vacân¬cia no papado por um mês."
"Afirma-se que esse João era uma mulher que, quando moça, fora levada a Atenas vestida com roupa de homem, por certo amante seu. Lá se tomou proficiente numa grande diversidade de conhecimentos ao ponto de não ter igual. Posteriormente foi a Roma, onde ensinou as artes liberais e teve grandes mestres entre os seus alunos."
 
"Pelo seu grande saber e pela sua vida, foi por todos escolhida como papa. Mas quando papa, foi engravidada por seu segundo amante. Por ignorância do tempo exato em que era esperado o nascimento, quando estava numa procissão do São Pedro até Latrão, deu à luz um filho em uma estreita viela entre o Coliseu e a Igreja de São Clemente."
"Dizem que a criança foi enterrada naquele mesmo lugar. O senhor papa sempre se desvia daquela rua abominável. Esta Joana não foi colocada entre a lista dos santos pontífices, tanto por causa do sexo feminino quanto devido à sordidez do caso'.
 
Este é o registo de Martinus Polonus. Mas há muitos outros historiadores que confirmam a história, como Sigebert de Gemblours, monge beneditino (1030-1113) que escreveu "Chronica", editada por Pistorius em 1725.
Escreve ele: “Houve rumores de que esse João era uma mulher e era conhecida como tal apenas por um companheiro que teve relações com ela e a deixou grávida. Ela deu à luz quando era papa. Por isso alguns historiadores não a incluem na lista dos papas".
 
Outro historiador que fala da papisa Joana é Otto, bispo de Frisingen (Alemanha), parente dos imperadores do sagrado romano império, que morreu em 1258 depois de ter escrito sete livros de Chronicas.
 
“Há uma interrogação a respeito de um certo papa, ou melhor, papisa, que não é incluído na lista dos papas de Roma porque era uma mulher que se disfarçava de homem. Um dia, quando montava a cavalo, deu à luz uma criança”.
 
Outro historiador que fala da papisa Joana é Gotfrid de Viterbo, capelão e secretário da Corte Imperial que escreveu no "Pantheon", no ano 1185, a seguinte observação: "Joana, a papisa, não é contada depois de Leão IV".
Também o dominicano; Jean de Mailly, de Metz (França), que escreveu "Chronica Universalis Mettensis" no ano de 1250. Escrevendo sobre os acontecimentos do ano de 1099, diz:
"Há uma interrogação a respeito de um certo papa, ou melhor, papisa, que não é incluído na lista dos papas de Roma porque era uma mulher que se disfarçava de homem e a motivo de seus grandes talentos tornou-se secretário curial, cardeal e papa. Um dia, quando montava a cavalo, deu à luz uma criança".
 
Outro historiador é o frade dominicano francês Estevão de Bourbon, que morreu em 1261 e relata o mesmo caso.
Naturalmente todos os sucessivos escritores católicos a partir de. 1500 negaram o fato encontrando nos textos acima dezenas de inverdades históricas, de textos omissos, de textos adulterados... (Quem estaria interessado a adulterar os textos?... Os historiadores eram [todos eles] eclesiásticos...).
 
Antes de considerar os quatro elementos históricos que provam a existência da papisa Joana, vejamos quem é este Marianus Scotus que (parece) foi o primeiro a relatar o caso.
 
Se Marianus Scotus tivesse inventado essa história certamente Gregório VII, o mais apaixonado defensor dos bispos de Roma, de sua santidade e infalibilidade, jamais teria permitido que se introduzisse nas "Chronicas" este fato; o mesmo pode-se dizer de Victor III, Urbano II e Pascoal II, todos contemporâneos de Marianus Scotus.
O mesmo pode-se dizer do célebre abade Alberico de Monte Cassino, tão devotado dos bispos de Roma e tão defensor de sua autoridade.
 
Todos os escritores católicos concordam que Marianus Scotus era um escritor imparcial e sua reputação era tal que não só a Escócia (sua pátria) mas, também, a Alemanha e a Inglaterra reclamavam a honra de seu nascimento.
 
Também nunca ninguém duvidou de sua dedicação à Santa Sé. Prova disso é que ele defendeu Gregório VII contra o imperador Henrique IV. Durante toda a sua vida a serviço dos bispos de Roma, nenhum historiador católico encontra motivos para declará-lo mentiroso.
Mas quando alguns escritores católicos, sobretudo jesuítas, quiseram mostrar que Joana nunca existiu, então começou uma guerra feroz, ainda mais que nela tomaram parte numerosos historiadores protestantes entre os anos de 1500 e1600.
O leitor que gostaria de ler algo de imparcial e ter uma extensa bibliografia sobre o assunto pode ler: "A papisa Joana" de Rosemary e Darroll Perdoe; (Ibrasa: São Paulo: 1990. Biblioteca Histórica, etc; vol. 38).
Mas apesar de todos os esforços para negar os fatos, temos até hoje quatro argumentos para suspeitar, com fundamento, que a história da papisa Joana seja verdadeira.
Primeiro argumento: a rua evitada. Durante toda a alta e baixa Idade Média eram quase diárias as idas e vindas do palácio do Latrão (e residência oficial dos papas) à catedral de São Pedro. Essas procissões eram sempre feitas por um caminho direto.
Acontece justamente que a partir do ano em que a papisa Joana deu à luz, este caminho foi constantemente evitado ainda mais que no lugar do funesto acontecimento havia uma estátua da papisa.
Em 1486, o bispo-mestre-de-cerimónias-pontifícias, John Burchard, escreveu que Inocêncio VIII "na ida e na volta passou casualmente por aquela rua onde está localizada a estátua da papisa Joana como sinal de que João VTI Anglicus lá deu à luz uma criança. É por este motivo que não é permitido mais aos papas passar lá a cavalo" (John Burchard; "Liber Notarum"; em "Rerum Ibalicarum Scriptores"; Ed. L. A. Muratori).
 
Segundo argumento: a pedra memorial. Havia uma pedra que o historiador Estevão de Bourbon diz que "era fora da cidade", que continha uma inscrição alternativa que Estevão de Bourbon interpreta assim: "Parce Pater Patrum, Papissae Proditum Partum": muito clara alusão ao parto da papisa Joana!
 
Terceiro argumento: a estátua: por volta do ano 1375, quando apareceu "Mirabilia Urbis Romae", sabia-se como dado de fato comum, a existência de uma estátua que representava uma mulher com manto, coroa e cetro pontifício, segurando uma criança.
 
Todos sabiam que representava a papisa Joana. Até Lutero viu esta estatua e achou impróprio deixá-la no lugar. (Ver: "La statua delia papessa Joana" em "Bollettino della Commissione Arqueológica Comunale di Roma"; XXXV; 1907; pág. 82-95).
 
Quarto argumento: a cadeira furada, onde a partir de Benedito III (855-858) os bispos de Roma, já eleitos, deviam sentar-se antes da consagração, para que apósitos diáconos se certificassem, pelo tato, que eram de sexo masculino.
O uso da cadeira furada terminou no século XVI. E agora, o que dizer? Primeiro: Joana não foi, a primeira mulher a usar vestes sacerdotais/episcopais. Sabemos pela história, que Santa Tecla, vestida de homem, acompanhou São Paulo em todas as suas viagens. Sabemos que uma tal de Margarida, vestida de padre, entrou num convento masculino com o nome de frei Pelágio.
Sabemos que Eugénia, filha de Filipe, governador de Alexandria, no tempo do imperador Galliano, dirigia um convento de frades. A "Chronica de Lombardia", escrita 30 anos após a morte de Leão IV, conta de uma mulher que foi patriarca de Constantinopla.
De resto sabemos que até ao século III existiam, entre os cristãos; as sacerdotisas, pois as atas do Concílio de Calcedónia dizem que as mulheres podiam receber todas as ordens sacras como os clérigos.
São Clemente Alexandrino, numa epístola, fala longamente sobre as funções das sacerdotisas: celebrar os mistérios; pregar o evangelho; ministrar o batismo. Atton, bispo de Verceil, refere-se nos seus escritos aos trabalhos das sacerdotisas na Igreja primitiva: elas eram tão importantes que tinham sob suas ordens muitas diaconisas. Também Anastácio, bispo de Alexandria, e São Cipriano falam das sacerdotisas irresponsáveis.
Como se vê, havia antecedentes históricos proibidos de serem mencionados entre os católicos porque a ideologia do poder eclesiástico é uma história de machos...
 
Autor: Carlo Bússola, professor aposentado de Filosofia da UFES
 
Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.

03/11/2012

A Influência de Agostinho na Igreja Cristã


Agostinho, natural do norte da África (354-430), é conhecido como o maior ou um dos maiores doutores da Igreja Católica. Nomeado bispo de Hipona, na região de Cartago, escreveu o famoso livro "A Cidade de Deus" (Ed. Vozes; 1990), que queria ser o fundamento filosófico do cristianismo, pois é o primeiro tratado de Filosofia da História em chave cristã.
Deste modo Agostinho descobre que o verdadeiro poder está na hierarquia eclesiástica, a única autorizada a ser a intermediária entre o homem e Deus.
A tese de Agostinho é a seguinte: o homem não é realmente livre porque pelo pecado original a luz de sua razão ofuscou-se e a vontade enfraqueceu-se. Assim, ninguém pode salvar-se a si mesmo.
Só resta um caminho que nos salva do inferno e este caminho "é a hierarquia católica que dispõe dos sacramentos para a nossa salvação e reabilitação. Com efeito, não havendo liberdade, só resta o poder eclesiástico para libertar-nos.
Então desenvolve a ideia de que "A Cidade de Deus" deve, aos s poucos, eliminar a "Cidade Terrena”. Mas, atenção: não se fala em "Primado" do bispo de Roma; nem em sonho ele pensa que o bispo de Roma tenha uma autoridade superior aos demais bispos o algo de superior aos outros quatro patriarcas.
Ele fala de "eclesiásticos", isto é bispos e padres em suas igrejas. Mas isso não impediu que dessa doutrina nascessem todos os abusos eclesiásticos romanos da Idade Média, ainda mais que já no ano de 1200 Tomás de Aquino irá sistematizar as doutrinas agostinianas na “Summa Theologica".
A escalada da ideologia do poder eclesiástico é a seguinte: primeiro, Clemente romano, como já vimos em artigos passados; segundo, Agostinho, que raciocina assim: deve haver uma Igreja visível, institucional, que possa ser o "corpo" que encerra o reino de Deus nesta terra (A Cidade de Deus).
Terceiro: Tomás de Aquino na "Summa Theologica" e na "Summa contra Gentes" estrutura estas ideias e diz que a hierarquia eclesiástica católica tem realmente autoridade jurídica com o direito de punir com a morte os heréticos impenitentes (nasce o conceito de Inquisição).
Quarto: o Concilio de Trento no XVI século faz leis compulsórias que obrigam os homens a fazer parte da Igreja, mesmo com o uso de meios coercitivos (nascem as Missões).
Além dessa parte dogmática, o pensamento e os escritos de Agostinho influenciaram quase totalmente a moral cristã quanto à atitude a ter-se com as mulheres e com o sexo.
Os teólogos sempre souberam que quem domina o sexo de uma pessoa, domina toda essa pessoa; é por isso que por séculos a fio pregaram que a maior virtude é a obediência e o maior pecado é o pecado sexual.
Aqui vai uma breve resenha que mostrará claramente o que Agostinho pensa da mulher, do sexo e do casamento e como as suas ideias estão influenciando até hoje a teologia católica.
Agostinho era tão convencido inferioridade das mulheres que, na sua opinião, para um homem a presença de um outro homem seria mais importante do que a presença de uma mulher: (“De Virgini-tate"); 14; e "In Genesim homiliae"; 18,1).
Com efeito, Agostinho escreveu que todos os problemas da humanidade começaram com Eva, a primeira mulher. Então Agostinho se pergunta: por que o demónio fala com Eva e não com Adão? E responde: Porque sabia que era difícil enganar o homem, mas era mais fácil enganar a mulher ("De Civitate Dei"; XIV, 11).
Agostinho conhecia as ideias de Aristóteles, que havia escrito que a mulher devia a sua existência a um erro no processo do nascimento. O interessante é que a partir dessa ideia, até Sto. Tomás de Aquino, que vivia no século XIII, pensava, como os demais teólogos, que a mulher era "um homem deformado".
Santo Alberto Magno, que foi o grande mestre de Tomás de Aquino, escreveu em "Questiones super animalibus" (XV; q, 11): "A mulher é menos qualificada do que o homem para um comportamento ético (isto é; tem maior tendência para a imoralidade); o motivo disto é que a mulher contém mais líquido (sic) do que o homem e a propriedade dos líquidos é moverem-se com facilidade".
"Isto explica porque as mulheres são inconstantes e curiosas; por exemplo: quando uma mulher tem relações sexuais com um homem, ela gostaria, porquanto lhe fosse possível, ter relações também com outro homem. A mulher é incapaz de ser fiel; acreditem-me: se alguém lhe der a sua confiança certamente ficará desiludido. (...)"
"É por isso que os homens prudentes falam de seus planos e ações com os outros homens, nunca com suas esposas. A mulher é um ser vil e espúrio e possui uma natureza deficiente e imperfeita, quando a compararmos com a natureza do homem."
"Explica-se porque ela é insegura de si e porque ela tenta conseguir com mentiras com carater diabólico aquilo que não pode conseguir normalmente. Enfim, temos que estar em guarda diante de toda mulher como se fosse uma cobra venenosa ou um demónio. Se eu pudesse falar tudo que sei das mulheres, o mundo ficaria espantado! (...)"
"A mulher é mais esperta nas ações malignas e perversas, porque possui um impulso que a impele em direção de todos os males do mesmo modo que o uso da razão impele o homem para o bem".
E Tomás de Aquino completa seu raciocínio dizendo que a capacidade do raciocínio dos homens e suas virtudes são mais perfeitas e mais fortes do que as das mulheres.
Há uma outra ideia que Agostinho passa para Tomás de Aquino: o único motivo para o qual Deus deu Eva a Adão é a procriação. Só. Em todas as demais ocupações um homem é o maior auxílio para outro homem (Em: II, s.; 20,1 e IV s., 26,6).
A ideia de Agostinho, retomada pelos escolásticos ao longo dos séculos, era que a mulher para nada serve à vida intelectual masculina; "nada degrada mais o espírito do homem do que os carinhos da mulher" ("Summa Theol."; II/II; q. 151; a. 3; ad 2).
E Tomás de Aquino completa seu raciocínio dizendo que a capacidade do raciocínio dos homens e suas virtudes são mais perfeitas e mais fortes do que as das mulheres ("Summa Contra Gentes"; III; 123).
Depois, passando aos fatos, Tomas de Aquino afirma que o pai deve ser amado mais do que a mãe porque ele é o princípio ativo da geração enquanto a mãe é apenas o princípio passivo ("Summa Contra Gentes"; II/II; q. 26; a. 10).
Por ser criatura deficiente, a mãe não sabe educar a criança tão bem quanto o pai sabe, porque ele tem mais capacidade intelectual e mais força e virtude para controlar os filhos ("Summa Contra Gentes"; III; 122).
Esta realidade biopsicossocial mostra que a mulher, para aqueles eclesiásticos, não tem o mesmo valor do homem: ela está sempre colocada, pela própria natureza, em alguns graus mais abaixo. Este é o motivo, segundo Tomás de Aquino, pelo qual a mulher não pode receber as ordens sagradas: não pode ser ordenada sacerdote ("Summa Th. Suppl."; q. 39; a.l).
Portanto deve-se negar às mulheres qualquer ofício eclesial.
Noutras palavras: só o macho é o dono do altar com todo o poder que isto implica.
Não foi por acaso, no II sínodo de Mâcon (França) no ano de 585, que os bispos e padres lá reunidos discutiram se as mulheres tinham alma, ou não tinham... Quem nos informa disto é o bispo e historiador São Gregório de Tours ("História Francorum"; 8,20), que nos relata que a maioria aceitou que as mulheres tivessem alma porque o Génesis diz que Deus criou o homem macho e fêmea.
Portanto as mulheres têm alma como os homens. Mas, mesmo tendo alma, quando se trata de julgar as mulheres numa, digamos assim, escala de valores, as mulheres têm o lugar mais baixo.
 ("Summa Th."; II/II; q. 152; a. 5; ad 2; e: I/II; q. 70; a. $ 3; ad 2).
Por isso, se o homem fosse inteligente jamais teria relações sexuais com mulheres, nem mesmo com sua esposa porque "o ato sexual sempre tem algo de vergonhoso em si e faz a pessoa enrubescer" ("Summa Th."; q. 49; a. 4; ad 4).
Se o leitor bem observou, os nossos teólogos machistas já estão deslizando o do assunto "mulher", para o assunto "coito"; e, deste, para o que mais importa: o casamento, no qual só o bispo manda, por tratar-se de sacramento.
Quem consegue dominar o sexo, já consegue dominar a organização ética e social: torna-se dono do corpo e da alma da sociedade.
Já vimos o grande número de regras dadas pela Igreja, durante a Idade Média, com relação ao sexo. E até o Concilio de Trento, já na véspera do Iluminismo, determina os dias em que não se deve fazer sexo: 150 dias no ano! Além de determinar que o casamento só é válido quando contraído perante o sacerdote...
Então veio o Iluminismo e a Revolução Francesa: veio o Positivismo e o Marxismo... Mas nada mudou com relação à mulher, dentro da Igreja. A ideologia do poder eclesiástico continua machista.
Autor: Carlo Bússola, professor de Filosofia na UFES
Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.
Comentários do IASD Em Foco:
Ao discorrer sobre a ideologia do poder do Bispo de Roma, o Prof. Carlo Bússola apropriadamente afirma no artigo 18 desta série, intitulado “Anastácio II (496-498) e os Merovíngios”:
(Parêntese: por que a luta contra o arianismo? Porque era de fundamental importância dizer que o cristianismo foi fundado por Deus e não por um homem divino! Sendo fundado por Deus, o bispo de Roma se tornava vice-Deus...).
É um tiro na mosca; pois, no livro do Papa João Paulo II, “Cruzando o Limiar da Esperança”, como acontece em muitas outras publicações católicas, nós encontramos a seguinte descrição do Bispo Romano:
“Portanto, desde o início do diálogo seria necessário dar o devido destaque ao enigma ‘escandaloso’ que o Papa, como tal, representa; não, em primeiro lugar, um Grande entre os Grandes da Terra, mas o único homem no qual os outros vêem um vínculo direto com Deus, percebem o próprio ‘vice’ de Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da SS. Trindade”. – Cruzando o Limiar da Esperança, 1994, pág. 15.
Junto com a erudição do Dr. Carlo Bússola, enfatizamos a sua total isenção e honestidade intelectual [tão carente, diga-se de passagem, entre historiadores, teólogos, proclamados apologetas, pastores e outros líderes religiosos da atualidade].
Quanto a isso, veja-se a nota de advertência que com frequência aparece na maioria dos artigos da série. No entanto, ressalte-se que os fatos falam por si mesmo sobre a origem insidiosa deste sistema da falsa religião, como predita pelo profeta Daniel, apóstolo Paulo, João e outros (Daniel 7:8-10; Atos 20: 28-30; II Tessalonicenses 2:3-4 e 7-12; Apocalipse 13:1-10).
O Apocalipse Apresenta a Localização Geográfica da Sede Deste Poder: “Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre as cabeças, nomes de blasfémia” (Apocalipse 13:1).
Mar = Povos, Nações, Lugar Densamente Povoado: “O anjo continuou a me explicar: ‘Você viu aquela prostituta que está sentada perto de muitas águas. Essas águas são povos, multidões, nações e línguas diversas” (Apocalipse 17:15, texto da Bíblia Católica “Bíblia Sagrada, Edição Pastoral). 
Sete Cabeças = Sete Montes ou Sete Colinas: “Aqui está o sentido, que tem sabedoria: As sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada” (Apocalipse 17:9).
Frequentemente, escritores clássicos tais como Horácio, Virgílio, Gregório, Marcial, Cícero tem identificado Roma como a cidade das sete colinas. Os comentários católicos das Bíblias do Pontifício Instituto Bíblico de Roma e da Bíblia de Jerusalém sobre Apocalipse 13:1-2 e 17:1-3 informam que os sete montes identificam a cidade de Roma.
A Bíblia Católica “Bíblia Sagrada, Edição Pastoral” é taxativa em seu comentário do texto de Apocalipse 17:9-11: “As sete cabeças são as sete colinas de Roma”. Nota: Os próprios teólogos católicos reconhecem esta verdade insofismável e inapelável!
“Todos sabem que Roma é a cidade das sete colinas, chamadas Quirinal, Viminal, Esquilino, Célio, Aventino, Palatino e Capitolino. Seria muita coincidência se o texto não se referisse especificamente ao catolicismo romano”. – Alcides Conejeiro Peres, O Catolicismo Romano Através dos Tempos, pág. 90.
A Bíblia Católica “Bíblia Sagrada, Edição Pastoral” apresenta o seguinte comentário para o texto de Apocalipse 17:1-6: Explicação do Mistério do Mal: “A prostituta é símbolo de uma cidade idolátrica. Na época, trata-se de Roma, aqui apresentada como Babilónia, a capital da idolatria e do vício. Ela está assentada sobre a Besta escarlate, a cor do triunfo para os romanos. … Seu crime supremo é perseguir e matar todos aqueles que não aceitam adorar o poder político absoluto, nem se enganam com as propagandas ideológicas”.
Amigos, dada a sua importância crucial, os assuntos aqui abordados dizem respeito a todos os cristãos – católicos, evangélicos, ortodoxos, renovados, protestantes, etc. – independente da coloração ideológica ou denominacional; pois, a Bíblia afirma taxativamente que este sistema da falsa religião, erigido em cima da “ideologia do poder”, contaminou praticamente todas as religiões cristãs:
“Seguiu-se outro anjo, o segundo, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilónia que tem dado a beber a todas as nações do vinho da fúria da sua prostituição” (Apocalipse 14:6).  “... pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição...” (Apocalipse 18:3, p.p.).
Fazendo, em tempo, uma correção no “endereço” desta solene mensagem de advertência, nós verificamos que ela se destina a todos os habitantes da Terra; afinal, agora nos derradeiros momentos da História o complexo babilónico da falsa religião abarcará toda a Terra e, portanto, todo habitante deste planeta terá que tomar a sua decisão de um lado ou do outro, a favor da Verdade (Apocalipse 14:12) ou do lado do erro (Apocalipse 14:9-11).
Repetimos: o domínio da falsa religião será planetário! É a globalização do erro: “Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação; e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a Terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:7-8).
Em tempo, “vinho” em linguagem profética significa “doutrina” e, por conseguinte, a Bíblia afirma que, embora repudiem a idolatria e outras práticas abomináveis de Babilónia, suas “filhas”, praticamente todas as religiões ditas cristãs, beberam – assimilaram em seu corpo doutrinário – as principais doutrinas do “cardápio” de Babilónia.
A ordem solene de Deus para todos os sinceros e fiéis espalhados por todos os credos, denominações e, inclusive, ligados diretamente à Babilónia mística é esta: “Ouvi outra voz do Céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo Meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos” (Apocalipse 18:4).
Amigos, é hora de cortar definitivamente os laços com a Babilónia mística, profética! É hora de cortar os laços e cadeias que nos prendem ao erro (vinho de Babilónia) e abraçar totalmente a verdade!!! Para tanto, é bom lembrar sempre:
 - O importante não é o que o presbítero diz!
- O importante não é o que o missionário diz!
- O importante não é o que o evangelista diz!
- O importante não é o que o bispo diz!
- O importante não é o que o obreiro diz!
- O importante não é o que o “apóstolo” diz!
- O importante não é o que o padre diz!
- O importante não é o que o pastor diz!
- O importante não é o que o teólogo diz!
O importante é o que Deus diz! O importante, e nisto está a nossa segurança eterna, é o que a Palavra de Deus diz! E ela nos ordena:
“Retirai-vos dela, povo Meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos” (Apocalipse 18:4).
Ela nos indica para onde devemos ir e que caminho devemos seguir, em meio aos enganos finais dos últimos dias:
“Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os Mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12).
Para Quem Quiser Saber Mais Sobre o Assunto:
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=145
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=138
http://www.iasdemfoco.net/mat/emdefesa/abrejanela.asp?Id=67
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=137
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=135
http://www.iasdemfoco.net/mat/emdefesa/abrejanela.asp?Id=60
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=136
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=89
http://www.iasdemfoco.net/mat/querosaber/abrejanela.asp?Id=87
http://www.iasdemfoco.net/mat/emdefesa/abrejanela.asp?Id=74

26/10/2012

O "LIBER PONTIFICALIS" E O PSEUDO-ISIDORO

Nada melhor do que as falsas Decretais do Pseudo-Isidoro para firmar a ideologia do poder eclesiástico romano


Já no século V existia um antigo catálogo dos bispos de Roma: é o "Liber Ponti­ficalis", que na Idade Média era atribuído ao papa Dâmaso (366-384), embora do ponto de vista histórico não se possa fixar-lhe a data.
Este catálogo era também cha­mado "Anastásius", pois alguém começou a lançar a ideia de que teria sido compilado por Anastásio o Bibliotecário (Ro­ma; 815-878), da Igreja roma­na, que foi homem de confian­ça de três papas: Nicolau I, Adriano II, João VIII.
Mas era uma autêntica frau­de, pois tentava impor numa épo­ca de ignorância absoluta, mes­mo entre os eclesiásticos, um documento que encontramos nas suas formas rudimentais no ano de 530.
Veja-se esta obra na edição de Schelstrate, que no seu li­vro "Antiquitas Ecclesiae Romanae" (1693; I; pág. 402, ss) colocou em duas colunas em­parelhadas, de um lado o texto do ano 530 e, ao lado, numa outra coluna, tudo que foi acrescentado nas décadas posteriores, do começo até o ano de 724 com Gregório II  (715-731).
Então aparece em evidência tudo aquilo que foi acrescentado, sem nenhum fundamento his­tórico. É pura manipulação; é pura fantasia, com a finalida­de de mostrar a importância da Igreja de Roma no cenário europeu e asiático.
O livro é escrito num latim deficiente e meio bárbaro que em nada respeita a importantíssima "Conseçutio temporum" dos grandes escritores latinos!
Qual a finalidade deste livro?
Em primeiro lugar era mostrar que os bispos de Roma até então formavam uma cadeia ininterrupta de bispos que, a partir de São Pedro, tinham autoridade sobre a igreja universal.
Em segundo lugar, considerava-se importante crer e fazer crer que a Igreja de Roma teve o maior número de mártires que todas as demais igrejas cristãs. (Sabemos hoje que nem um terço daquilo que está escrito no livro rege a uma pesquisa histórica. Mas, numa época de grande ignorância e fanatismo, isto era importante).
Em terceiro lugar interessava dar caráter histórico a muitas lendas atribuídas a papas e imperadores, como o batismo romano de Constantino.
Em quarto lugar, era necessário apresentar os bispos de Roma como legisladores de todas as igrejas, introduzindo frases como: "aprovou o sínodo tal..."; ou "aprovou o concilio tal..."; etc, embora hoje saibamos muito bem pela pesquisa histórica que esses bispos romanos nunca participaram de sínodos e concilio porque nem eram informados, tão pouco caso se fazia deles!
 
Finalmente, em quinto lugar, apresentar os bispos de Roma como reformadores litúrgicos. (Hoje o mesmo A. G. Martimort na sua fundamental obra "A Igreja em Oração"; trad, portuguesa; Barcelos; 1965; reconhece a falsidade desta tese!).
O "Liber Pontificalis" é uma das mais belas invenções da ideologia do poder dos bispos de Roma. Não tem nenhum fundamento histórico pois os seus autores só sabem afirmar que "papa Dámaso...", "papa Gelásio...", "papa Hilário...", "fecit constitutum de omni ecclesia", isto é: promulgou este decreto para toda a Igreja, o que significou, até aos dias de hoje: para a Igreja universal... Era a tentativa de criar uma situação de fato!
Otto Piper, teólogo presbiteriano, nascido na Alemanha em 1891 e formado em Filosofia e Teologia, entre os vários livros que escreveu, há um que é interessante: "Einleitung ,in,,die monumental Theologie" (Gotha; 1867; pág. 315-349), onde afirma e prova que tudo que o " Liber Pontificalis " contém, não passa de afirmações (sem provas) dos séculos VI e VII.
É como dizer que nada é histórico! Aliás, quase tudo é anti-histórico. É o mesmo que afirmam os críticos Tillemont e Constant depois de um detido exame crítico , do "Liber Pontificalis" afirmando que se torna mais que evidente que os autores deste livro nunca tiveram diante dos olhos algum material histórico em forma de documento.
A única série de papas que aparenta ser historicamente correta é aquela escrita mais ou menos no ano de 536, que vai de Leão I (440) a Félix IV (526); mas esta série é também enfeitada de calculadas invenções romanas.
Mas a Crítica Histórica é uma disciplina moderna. Naquelas antigas épocas de ignorância geral, o "Liber Pontificalis" fez um tremendo sucesso, primeiro porque apresentado pelo papa reinante, isto é: uma autoridade que ninguém ousava discutir, protegida, aliada e amparada pelas armas dos príncipes.
Sabemos pela História que o primeiro a utilizar-se publicamente do "Liber Pontificalis" foi Beda, o "venerável" (Du­rham: 673-735), que escreveu "História Eclesiástica Gentis Anglorum" (História Eclesiástica da nação dos ingleses).
Beda era um erudito meticu­loso que na Europa do Norte go­zava de extrema confiança. No ano 710, escrevendo sobre o cristianismo, utilizou-se do "Liber Pontificalis" e chegou a afirmar que desde a origem do cris­tianismo os bispos de Roma sempre foram os legítimos legisladores da Igreja Universal.
A estima que todos tinham de Beda serviu para calçar as fal­sificações posteriores das Decretais do Pseudo-Isidoro. 
AS DECRETAIS
Isidoro, bispo de Sevilha 601, presidiu o importante Concílio de Toledo em 633. Era considerado o maior erudito do seu tempo, ao ponto de ser proclamado doutor da Igreja. Escreveu “Etymologiae" e outros panfletos que o tornaram conhecidíssimo pelos bispos espanhóis e franceses.
Mais ou menos no VII século, os bispos dos países francos, situados à margem esquerda do Reno, fabricaram uma centena de documentos falsos que afirmavam serem uma coleção de 100 antigas cartas e decretais de vários bispos de Roma e de vários sínodos, que o bispo Isi­doro de Sevilha havia juntado e catalogado.
Lia-se nesses documentos que as Igrejas da Gallia dependiam exclusivamente do bispo de Roma, que detinha o poder eclesiástico absoluto sobre toda cristandade europeia.
A finalidade dessas falsas decretais era verem-se livres dos  metropolitas da região, bem como de príncipes e reis, Esse bispos viriam assim a depender exclusivamente do bispo de Roma (que na época estava a cerca de dois meses de viagem a cavalo...
Quando o bispo de Roma Nicolau I (858-867) soube da existência dessas decretais, apoderou-se delas imediatamente, servindo-se logo, logo, como se fossem documentos autên­ticos que serviam muito bem à ideologia do poder eclesiástico romano.
Com base nestas Decretais do Pseudo-lsidoro, a Igreja de Roma proclamou e fez saber a todas as demais igrejas que ela detinha a pleni­tude do poder eclesiástico.
Em consequência dis­so, todos os decretos sinodais e conciliares de­viam ter a aprovação de Ro­ma antes de entrar em vigor; e, finalmente, todos os bispos eram apenas auxiliares do bispo de Roma," que se tornava automaticamente o bispo da Igreja Universal e o ponto de referência para a fé, liturgia e costumes.
E não era isto que os bispos de Roma queriam, quando idealiza­ram a ideologia do poder? Gregório VII usou e abusou des­tas decretais e, por meio delas, colocou a firme plataforma do poder romano.
Autor: Carlo Bússola, professor aposentado de Filosofia na UFES
 
Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.

20/10/2012

A Escolha dos Papas I


O papado era o mais importante e cobiçado cargo da Terra. A família ou a facção que conseguisse eleger o pontífice teria predomínio político e material praticamente sobre todo o mundo. Esta situação prevaleceu durante muitos séculos, quando somente eram eleitos homens poderosos, de famílias da aristocracia e da nobreza. Por esta razão, quase todos os papas, especialmente os que viveram e governaram no período medieval, foram homens devassos, corruptos e cruéis.
A eleição de um papa quase que invariavelmente envolvia intriga, acordos espúrios e interesseiros, pois estava em jogo o cargo mais importante do mundo. Tal fato, não podendo ser desmentido pela Igreja Católica, é por ela justificado como sendo uma prática comum à sua época.
A vida dissoluta e profana dos papas, sua falta de escrúpulos e crueldade, valendo-se de todos os meios para justificar os seus objetivos, principalmente em manter o seu poder e autoridade, recorrendo às vezes até mesmo a crimes e assassinatos, fizeram deles legítimos representantes não de Jesus Cristo, como pretendem, mas de Satanás.
A Bíblia Sagrada, referindo-se à elevação do papado e o seu estabelecimento em Roma, registra este fato, como está escrito: Eu sei as tuas obras e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás (Apocalipse 2:13).
A influência e poderio das famílias aristocráticas produziram inúmeros absurdos que Roma hoje procura encobrir, como a eleição de um menino de apenas doze anos, da facção romana dos condes Túsculos, como papa. Este, já mencionado neste estudo, foi o profano papa Benedito IX, que vendeu o papado para outro nobre muito rico, João Graciano, que se tornou o papa Gregório VI.
 
Lourenço, o Magnífico, da família florentina dos Médici que governou Florença por mais de três séculos e que era a família mais rica da Europa, conseguiu que seu filho João de Médici fosse nomeado cardeal em 1.489 com apenas treze anos de idade. Mais tarde este mesmo menino foi escolhido papa, com o nome de Leão X, contemporâneo de Martinho Lutero, cujo pontificado foi marcado pelo cisma provocado pelo referido monge e que ficou conhecida como Reforma Protestante .
 
Um sobrinho de Lourenço, por ele criado e filho bastardo de seu irmão Juliano, também chegou ao trono pontifício em 1.523, com o nome de Clemente VII (Grandes Personagens, p. 89).
 
Como existiam enormes interesses em jogo, ao mesmo tempo em que uma família dominava absoluta, podia ela cair em desgraça pela morte do seu papa, se fosse ele sucedido por alguém de famílias inimigas, o que era bastante comum.
 
Por esta razão estas famílias mantinham grandes exércitos de mercenários. Os condotieri eram chefes de exércitos mercenários, contratados pelas poderosas famílias italianas e pelo papado, para assegurar a posse das cidades livres (Milão, Génova, Veneza, Florença) (Grandes Personagens, p. 98).
 
Segundo a História, Toda personagem poderosa tinha seus soldados, sua corte, seus partidários no Colégio dos Cardeais. Era em armas que se apresentavam no Vaticano (Grandes Personagens, p. 497). Dificilmente, pois, alguém ousaria enfrentar o sumo pontífice: ... afinal, colocar-se contra o papa é criar um inimigo forte, que joga com duas armas poderosas: o sentimento místico do povo e exércitos mercenários muito bem equipados (Grandes Personagens, Lourenço, o Magnífico , p. 424).
 
Outras famílias da aristocracia medieval que conseguiram eleger vários pontífices foram os Orsini, os Della Rovere e os Bórgia. A crónica da família Bórgia se notabilizou especialmente por três personalidades marcantes. Rodrigo Bórgia, que se transformou no incrível papa Alexandre VI e dois de seus filhos, Lucrécia Bórgia, sobejamente conhecida pelos incontáveis escândalos conjugais que protagonizou e César Bórgia, que inspirou o escritor Maquiavel em sua obra-prima O Príncipe. O termo maquiavélico hoje bastante usado e conhecido é derivado das ações e do caráter do temível filho do papa Alexandre VI.
 
Para se ter uma ideia da impiedade e corrupção que imperava nessa época que precedeu à Reforma Protestante, vamos fazer algumas breves considerações a respeito da vida desse papa, do seu antecessor e do seu sucessor, respectivamente os papas Inocêncio VIII e Júlio II.
 
Vamos fazer referência a um registo histórico que menciona o dia em que Rodrigo Bórgia recebeu a tiara papal como Alexandre VI. A grande multidão que ovaciona o novo pontífice, impressionada com a pompa do cortejo papal e a grande festa oferecida para saudá-lo, clama entusiasmada: Roma era grande sob César, hoje é maior. César era um homem, Alexandre VI é um deus, gritam os cidadãos. Muitos, porém, permanecem silenciosos. Para eles, o novo pontífice é um pecador condenado ao inferno (Grandes Personagens da História Universal, p. 493).
 
Ocorre que era por demais conhecida a vida devassa e desregrada do cardeal que agora recebia com o sólio pontifício o título de Sua Santidade. Era ele sobrinho de Afonso Bórgia, o papa Calixto III que o nomeara cardeal em 1.456, juntamente com seu irmão, Pedro Luiz. Para este, foi criado o cargo de Cardeal-sobrinho, depositário do poder temporal do papado .
 
Os excessos do cardeal Rodrigo eram conhecidos, a ponto de ser repreendido pelo papa Pio II, que sucedera a seu tio: O Cardeal Bórgia, porém exagerava, a ponto de Pio II, ter de escrever-lhe, para fazer críticas severas: Querido filho, quando várias senhoras (..) se reuniram nos jardins (..), Vossa dignidade, esquecido do cargo que ocupa, demorou-se junto a elas das 7 às 22 horas. Dançou-se de maneira dissoluta. Ali, nenhum dos prazeres do amor foi esquecido. Os maridos, os irmãos, os pais das jovens senhoras e das moças convidadas não foram admitidos, para que vosso divertimento pudesse ser mais livre de todo obstáculo. Nosso desprazer é indizível. Rodrigo dizia-se arrependido, prometia emendar-se. Ficaria conhecido, porém, como o cardeal que nunca dormia só em seu leito (Grandes Personagens da História Universal, Lucrécia Bórgia , p. 494).
 
Continuam os registros históricos, a respeito do personagem citado: Em 1.468, o irrequieto Cardeal Bórgia tornou-se amante de Giovana Catanei, linda moça de apenas dezasseis anos. Em 1.474, arranjou-lhe um marido cómodo a tempo de que o primeiro filho, César, nascesse em legítimo casamento (Obra citada, p. 494). O cardeal que depois se tornaria papa teve quatro filhos ilegítimos, mas nem por isso escondeu sua paternidade.
 
A respeito deles, diz a História: ... são todos filhos reconhecidos do Cardeal Bórgia, naturalizados espanhóis, e isentos de quaisquer restrições devidas a seu nascimento; a eles estão reservadas inúmeras honrarias. Mas aquela menina loura terá um destino mais amargo. Será dada em casamento em troca de ocasionais alianças políticas e verá seus esposos afastados de si, quando estas alianças perderem a validade. Recebeu a formação de jovem princesa do Renascimento italiano, filha de uma das mais poderosas personalidades da Igreja (Idem, p. 494).
 
Continua a História o registro a respeito da filha do papa, usada como instrumento político pelo pai e pelo irmão César: Onze anos era idade mais que suficiente para uma menina da aristocracia ficar noiva. Lucrécia podia estar orgulhosa da escolha do pai, tanto mais que se dizia que o jovem Dom Gasparo era muito belo. A elevação de Rodrigo Bórgia ao trono pontifício, porém, tornou impossível o casamento. A mão de Lucrécia seria dada em penhor de alianças políticas mais importantes (Idem, p. 497).
 
Vários casamentos foram realizados e anulados, ao sabor dos interesses políticos e de alianças vantajosas. Eis o relato do primeiro: A 12 de junho de 1.493 realiza-se no Vaticano o casamento de Lucrécia Bórgia. Está presente a alta sociedade romana. Sua Santidade tem à esquerda seu filho César, já arcebispo de Valência. João Bórgia, duque de Gândia, acompanha a irmã. Após a cerimónia, as festividades. Escudeiros da Casa do Cardeal Colonna, vestidos com peles à maneira de selvagens, recitam poemas sobre o amor. Camaristas servem doces, frutas e vinhos. Enorme quantidade de confeitos é atirada ao povo. Mais tarde, no salão dos pontífices, Alexandre VI oferece aos convidados esplêndida recepção, com danças e teatro. À noite, o papa conduz pessoalmente o casal ao Palácio de San ta Maria in Pórtico, residência de Lucrécia. É esta a primeira alusão a relações incestuosas entre Lucrécia e seu pai (Ibidem).
 
Alexandre VI protagonizou várias tragédias mas a mais dolorosa foi a morte do filho que mais amava, o Cardeal João Bórgia, assassinado pelo irmão César, segundo as crónicas da época: ... quando Alexandre conseguiu superar a dor (depois de permanecer dois dias trancado em seus aposentos, chorando o tempo todo pela morte do filho João Bórgia), reuniu os cardeais. Diante deles atribuiu a morte do filho a um castigo divino, pelos muitos pecados do pai. Ninguém sabia quem fora o assassino. Falava-se nos Orsini, no senhor de Pesaro. Aos poucos, um nome destacou-se dos demais o de César Bórgia. Alexandre, alquebrado pelo desgosto, deixou -se dominar pelo Cardeal de Valença. César tornou-se cardeal leigo: poderia casar, perpetuar a Casa dos Bórgia com uma aliança política vantajosa. Pelas mesmas razões, era preciso anular o matrimónio de Lucrécia. Como seu casamento ficara estéril, o papa decidiu que não tinha sido consumado. Sforza foi considerado impotente e frio por natureza. Ela, depois de rir muito, cedeu aos desejos familiares e confirmou as acusações (Idem, p. 503).
 
Os escândalos envolvendo a família do papa continuavam a acontecer numa sucessão espantosa: Em fevereiro de 1.498, novo escândalo abala a sociedade romana: Pedro Calderón, camareiro do papa, é encontrado morto no Tibre. Imediatamente começam os rumores. O embaixador veneziano informa que César teria assassinado o jovem camareiro no próprio Vaticano, diante de Alexandre; Calderón teria morrido por ser amante de Lucrécia, que esperava um filho dele. César assassinou o rival, dizem os inimigos dos Bórgia (Ibidem).
 
O livro católico das crónicas papais assim se refere a Alexandre VI: Rodrigo Bórgia, espanhol de Valença, sobrinho de Calisto III, eleito na capela Sistina adoptou o nome de Alexandre VI. Era de grandes dotes naturais. O seu passado, porém, não o recomendava. Militar, aventureiro, possuído pela vida mundana, quatro filhos crescidos na depravação geral de uma época em que, com as artes, renascera o paganismo e na qual tudo o que era belo era considerado bom! Turvam a vida de Alexandre VI os atos de seus filhos: César Bórgia, a quem o papa amava e temia, foi herói do Príncipe de Maquiavel, impôs a sua férrea e traiçoeira política aos barões italianos, tornando odioso o nome paterno e Lucrécia Bórgia, vilmente caluniada, que foi exemplar esposa como duquesa de Ferrara. Pelos Arquivos Secretos do Vaticano, destemidamente franqueados aos estudiosos por Leão XIII, vê-se que Alexandre VI errou como homem (S. Pedro negou três vezes a Cristo), errou como príncipe (o meu reino não é deste mundo), jamais, porém errou nos ensinamentos da Igreja como Papa, Vigário de Cristo, o qual Cristo, dormindo na Barca de Pedro, sustentava-a contra as tempestades da Renascença paganizante e a favor de homens de pouca fé (Biografias dos Papas, p. 437).
 
Segundo o mesmo livro Biografias dos Papas, p. 435, João Batista Cibo chamou-se Inocêncio VIII. Foi eleito por cardeais impregnados do espírito da época: em sua maioria eram leigos e mundanos, quase sempre representantes de reis ou de famílias nobres, alheios, portanto, ao bem da Igreja. Comprometeu-se pois, Inocêncio, antecipadamente com seus eleitores o que lhe trouxe a pecha de simonia. Inocêncio era douto, humilde e bondoso, foi porém condescendente demais com seus filhos e sobrinhos. Para atrair Lourenço de Médici, o Magnífico, de Florença, nomeou cardeal seu filho João de Médici, o futuro Leão X, jovem demais. Como todos os príncipes de seu tempo, Inocêncio primou em estimular a artistas e literatos .
 
O papa Júlio II foi quem realmente sucedeu a Alexandre VI, porquanto Pio III não completou sequer um mês de pontificado. Da família Della Rovere, de muitos papas, Juliano Della Rovere era sobrinho do papa Sisto IV. Incrementou a cultura e as artes. Roma tornou-se a capital artística do mundo: Miguel Ângelo, Rafael, Bramante, a quem confiou a construção da nova basílica de S. Pedro, são nomes que imortalizaram o pontificado de Júlio II. Mais príncipe que papa, foi o homem necessário à salvação do pontificado numa época de prepotência (Biografias dos Papas, p. 441, destaques acrescentados).
 
Se conforme o registro abaixo, a respeito do caráter dos sobrinhos do papa Sisto IV apenas Júlio II se mostrou digno, como não terão sido os outros sobrinhos-cardeais? Pois eis o que a História declara do papa Júlio II: Júlio II foi considerado uma das figuras mais profanas que já passaram pelo trono de São Pedro (Grandes Personagens da História Universal, p. 108).
 
Se em todos os aspectos o pontificado do papa Alexandre VI foi abominável, o seu sucessor em nada ficou atrás na prática da corrupção e comportamento devasso. Júlio II, ao assumir o papado revelou, em nome da verdade, como pretexto, a grande iniqüidade do seu antecessor, revelações estas que na verdade tiveram por motivação o ódio pessoal e a rivalidade de suas famílias e facções políticas, para inviabilizar suas articulações visando a reconquista do poder. Segundo a História, O pontificado de Júlio II imitaria em tudo a obra de seu odiado inimigo Alexandre VI (Grandes Personagens, p. 508).
 
O tio de Júlio II, O papa Sisto IV, Francisco Della Rovere foi eleito num rápido conclave. Favoreceu o nepotismo; nomeou cardeais e príncipes a muitos sobrinhos seus, dos quais apenas um, o futuro Júlio II, mostrou-se digno. Excluindo-se sua fraqueza ante a deplorável vida de seus sobrinhos, Sisto IV realizou esplêndido governo. Construiu a magnífica e celebrada Capela Sistina. Seu nome está ligado à Inquisição espanhola, a qual infelizmente foi usada por civis para fins políticos ou por ignorância e fanatismo da época, ocasionando reprováveis abusos. A Sisto IV erigiram um sepulcro monumental. Nele, porém, figuram apenas motivos das artes e das ciências, nada de sinais cristãos! (CORREA, Iran (Padre), Biografias dos Papas, S. D. B., p. 433).
 
Note-se que esta obra católica é destinada a enaltecer a obra dos papas, expor a sua biografia, chamando-os de Guardiães Vigilantes dos Textos Sagrados Através dos Séculos . A introdução do livro finaliza com estas palavras: Abençoe a Virgem Santíssima Auxiliadora estas páginas: possam elas tornar mais conhecido e amado o sucessor de S. Pedro, o Vigário de Jesus Cristo na Terra, o Santo Padre, o Papa! (p. 11).
 
Se a obra destinada a enaltecer a vida destes papas deixa entrever o seu caráter mundano e ímpio, imagine-se como terá, na realidade, sido a vida destes inimigos de Deus e da verdadeira religião!
 
João de Médici, o filho de Lourenço, o Magnífico, sucedeu a Júlio II, com o nome de Leão X. Foi ele o papa contemporâneo da Reforma de Martinho Lutero. A seu respeito o livro Biografias dos Papas, já mencionado, traz o seguinte comentário: Na História da Igreja, em Leão X, os fulgores do príncipe foram fatais ao Pontífice (p. 443). Eis um interessante registro a respeito do referido pontífice: Finalmente chega a paz, depois da morte de Júlio II. Sobe ao trono dos pontífices Leão X, da Casa dos Médici. É o poderoso senhor de uma Itália exausta e empobrecida, vulnerável aos ataques da França e do Sacro Império (Grandes Personagens, p. 508).
 

Bonifácio III é nomeado Bispo Universal

O título de Bispo Universal foi criação do imperador grego Focas; não de Jesus Cristo


Depois de 12 meses de sangrentas lutas durante a vacância da Sé pontifícia, quando várias facções romanas queriam que fosse nomeado bispo seu eleito, venceu o partido e Bonifácio, que então foi ordenado e recebeu o nome de Bonifácio III.

 
Dizem os historiadores que Bonifácio ganhou a vaga porque o imperador Focas gostava dele desde a época em que vivia na corte de Constantinopla. Focas havia matado sua mulher, a imperatriz, e suas filhas e o patriarca Ciríaco o havia excomungado.

Para vingar-se, Focas elevou a Sé de Roma acima da Sé de Constantinopla, dando ao papa o título de Bispo Universal de todas as igrejas cristãs.


Parêntese: primeiro, até esta época (607 d.C) a Sé de Roma, embora patriarcado, era considerada, na prática, inferior à Sé de Constantinopla por ser esta a nova capital do império romano que ainda existia pelo menos de nome.


Segundo: ainda não existia o título de honra de "Bispo Universal". Terceiro: este título, com tudo aquilo que implica o adjetivo "universal", foi criação do imperador Focas, c não de Jesus Cristo! É bom frisar isto.


Mas Bonifácio III gostou tanto do título que convocou logo um sínodo com todos os bispos do seu patriarcado para cientificá-los da nova situação religiosa da Sé de Roma e para que, a partir de então, todos os bispos só pudessem tomar posse depois do reconhecimento do bispo de Roma. Mas morreu nove meses depois da sua eleição,em l2de novembro de 607.

Sucedeu-lhe Bonifácio IV (608-615), que agradeceu o imperador Focas pelo que havia feito à Sé de Roma. Focas, enternecido, deu-lhe de presente o templo do Panteon construído por Mário Agripa, genro de Augusto, 30 anos antes da era cristã e consagrado a todos os deuses do paganismo.


Sucedeu-lhe Deodato (615-618): um homem piedoso que só viveu

para ajudar os leprosos, que eram numerosos em Roma. Morreu abençoado por todos.


Sucedeu-lhe Bonifácio V (619-625) e, a este, Honório (625-638), que representa um verdadeiro problema para a Igreja Católica. Com efeito, o bispo Honório é a clássica prova, nas mãos dos racionalistas, de que o papa não é infalível (como define o dogma católico) porque sustentou e aprovou a heresia monotelista, professada na igreja grega e protegido pelo imperador Heráclio.

Os monotelistas sustentavam que Jesus tinha uma só vontade: a vontade divina e não tinha vontade humana. Num sucessivo concilio, em 649, os bispos condenaram o monotelismo e condenaram também o papa Honório queimando suas cartas e gritando: "Excomungado seja Honório, o herético!"


Seguiu-se mais um concilio ecumênico condenando o monotelísmo e o papa Honório. As histórias dos papas escritas por católicos dizem somente que "se deixou enganar pelo patriarca Sérgio". Outros católicos escrevem: "manifestou-se sobre o monotelismo de maneira que mais tarde será criticado...". Esconde-se a triste verdade!

Sucedeu-lhe Severino (640) e logo em seguida João IV (640-642) e Teodoro I (642-649). Este bispo era um homem particularmente rancoroso e vingativo, dando prova de grande intolerância nas disputas teológicas do monotelismo.

 
Conta a história que querendo ele nu-milhar o bispo Pirro, que já foi monotelista, mas então, depois da retratação vivia retirado em Rovena, Teodoro reuniu em Roma um grupo de bispos e em seguida, misturando tinta vermelha com o vinho da missa já consagrado (o sangue de Cristo na crença católica) assinou com essa mistura a condenação de Pirro.


Historiadores católicos não tocam neste episódio ou quando tocam, dizem que este é um uso particular dos prelados gregos e já que Teodoro era filho de um patriarca de Jerusalém, queria continuar a tradição oriental...


Sucedeu-lhe Martinho I (649-655) que deu continuidade aos debates ocasionados pelo monotelismo. A pedido de vários bispos mandou reunir no palácio do Latrão um concilio de 500 bispos para que examinassem as questões religiosas que perturbavam a Igreja.


O concilio durou muitos meses e teve cinco sessões, a primeira das quais começou em 5 de outubro de 649. Todos os bispos falaram e falaram muito; mas poucos eram aqueles que diziam coisas certas, por falta de estudos teológicos e sobretudo por falta de idéias filosóficas.


O historiador Sócrates Escolástico, referindo-se aos bispos desta época diz claramente que eram "simplórios e ignorantes". (Bastaria só a pergunta: o que significa "vontade de Deus", se Deus não pode ter vontade porque a vontade é um atributo humano?)


Mas por fim, muito entediados e cansados aprovaram por contagem de votos, 20 cânones; e condenaram um monte de gente que não pensava como eles.


O fim de Martinho I [Papa] foi extremamente triste. Levado prisioneiro a Constantinopla por ordem do imperador, sofreu por muitos meses uma dolorosa prisão. No fím, quase morto, sem poder se defender, foi desterrado para o Quersoneso, onde morreu de fome aos 16 de setembro de 655. Isto para que os bispos de Roma aprendessem que quem ainda mandava na Itália e na Igreja era o imperador.

Sucedeu-lhe Eugênio I (654-657), de cuja santidade todos os historiadores são pródigos. Sabe-se que fez tudo que lhe era possível para reconciliar a Igreja com o imperador.


Sucedeu-lhe Vitaliano (657-672), que continuou a política de seu predecessor. Aliás, conseguiu do imperador um decreto que colocava o bispo Mauro de Rovena sob o poder do bispo de Roma.


IGNORÂNCIA

A impressão que se tem pesquisando em diferentes autores a história desses papas é a enorme, infinita ignorância teológica e filosófica. O papa tal tem uma intuição meio estranha?!?... Pronto! Declara que aquilo é artigo de fé.


Como não existia mais nenhuma Escola de Filosofia (Justiniano fechou a última!) ninguém era treinado no raciocínio lógico. Tudo é fundamentado na fé. Aliás, tudo é baseado naquilo que lreneu disse...; que Epifânio disse.../ que Agostinho disse.../ etc. etc.

É nos "disse que disse" que, nesta época, se constroem as grandes verdades do cristianismo. A ninguém interessa saber o que Jesus disse, porque, de fato, Jesus nada escreveu e certamente pouco se importasse com as teologias...

Quando os legatos pontifícios de papa Agaton chegaram a Bizân-cio, o imperador Constantino recebeu-os no oratório de São Pedro, no palácio imperial.


Eles apresentaram-lhe as cartas da cúria romana e grande foi a surpresa do monarca quando por um primeiro exame, reconheceu a extrema ignorância dos padres da igreja latina que escreviam numa língua latina cheia de erros! Erros de ortografia! Erros de palavras! Erros teológicos!

Mas os padres da igreja grega não eram melhores. Nem estes nem aqueles tinham idéias claras sobre a pessoa de Jesus; sobre a Trindade; sobre o conceito de Deus (considerado uma pessoa muito especial, lá no alto dos céus); sobre a Virgem Maria...


Nos sínodos e nos concílios prevalecia a opinião do bispo mais poderoso e os demais levantavam o braço num obsequioso consentimento... (Parêntese: até no Concilio Vaticano II os bispos tinham seus "Periti", ou seja, os teólogos que conheciam a Teologia!!!).


Resumindo: desde a morte de Jesus, passaram-se sete ou oito séculos de cristianismo: um cristianismo cheio de disputas teológicas que, naturalmente, não levaram a nada.


E assim o nosso cristianismo atual é um conjunto artificial de idéias prováveis, ou, melhor, de suposições que o fanatismo de cada época acrescentava como sendo verdades certas, mas que quase sempre eram impostas pelas armas dos reis e mais tarde pela Inquisição e foram aceitas pela força de tradição.


Dá para entender por que o falecido cardeal Otaviani, prefeito do antigo Santo Ofício (da Inquisição) a toda hora nos dizia a nós estudantes de Teologia: "A nossa fé é baseada na tradição... Aliás, é a tradição que nos dá as Sagradas Escrituras".


Podia também dizer: "É a tradição que garante o poder eclesiástico".

 
Autor: Carlo Bússola, professor aposentado de Filosofia da UFES


Fonte: Publicado originalmente no jornal “A Tribuna” – Vitória-ES, numa série sob o título “Os Bispos de Roma e a Ideologia do Poder”.

Nota e Comentários do IASD Em Foco

Temos aqui, na postagem destes excelentes artigos, enfatizado reiteradamente a erudição, imparcialidade e honestidade intelectual do Dr. Carlo Bússola. Tudo o que ele escreve aqui em termos de História e a “ideologia de poder dos bispos” é fidedigno... Ocorre, porém, que, sem má fé ou distorção da verdade, o pesquisador comete um equívoco – ainda que parcial – quando faz as seguintes colocações:


É nos "disse que disse" que, nesta época, se constroem as grandes verdades do cristianismo.

E assim o nosso cristianismo atual é um conjunto artificial de idéias prováveis, ou, melhor, de suposições que o fanatismo de cada época acrescentava como sendo verdades certas, mas que quase sempre eram impostas pelas armas dos reis e mais tarde pela Inquisição e foram aceitas pela força de tradição.


"A nossa fé é baseada na tradição... Aliás, é a tradição que nos dá as Sagradas Escrituras".


Por mais que doa esta verdade aos católicos sinceros – e eles existem aos milhões – isso não se aplica ao Cristianismo como um todo, mas, sim, à Igreja Católica Apostólica Romana. Este poder que – como estava profetizado centenas de anos antes – nas suas duas fases (imperial e papal) substituiria a Verdade da Palavra de Deus pelas mentiras das tradições humanas.

Vejamos, de forma sucinta, o que diz a Bíblia sobre isso:

“De um dos chifres saiu um chifre pequeno e se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa. Cresceu até atingir o exército dos céus; a alguns do exército e das estrelas lançou por terra e os pisou. Sim, engrandeceu-se até ao príncipe do exército; dele tirou o sacrifício diário e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo. O exército lhe foi entregue, com o sacrifício diário, por causa das transgressões; e deitou por terra a verdade; e o que fez prosperou” (Daniel 8:9-12).

Foi Roma, repetimos e provamos bíblica e profeticamente, que nas suas duas fases – imperial e papal – atacou todo o conjunto de verdades bíblicas e o jogou por terra. É o quarto animal de Daniel 7 (ler: Daniel 7:7) exatamente o quarto Império Mundial e, das suas cinzas, surge um poder (Roma papal) simbolizado pelo “chifre pequeno” ou “ponta pequena” (ler: Daniel 7:8, Apocalipse 13:1-10).


Nosso Senhor Jesus e profetas e escritores bíblicos já haviam advertido sobre o gravíssimo perigo de substituir a Palavra de Deus pelas tradições humanas:

 
“Ele, porém, lhes respondeu: Por que transgredis vós o Mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? [...] E, assim, invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição” (Mateus 15:3 e 6).

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15:8-9).


“E em vão Me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente [com astúcia, falsificações da verdade, embustes, enganos de toda sorte] rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição” (Marcos 7:7-9).

 
Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia [os padres dão show de filosofia: Tenho amigos que estudaram em seminários católicos e, hoje, são padres. Com eles é assim: Filosofia 10 X Bíblia 0] e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

Quando entram em campo questões religiosas, espirituais, questões de salvação: das quais dependem o nosso destino terno, é bom lembrar sempre que:


- O importante não é o que o presbítero diz!

- O importante não é o que o missionário diz!

- O importante não é o que o evangelista diz!

- O importante não é o que o bispo diz!

- O importante não é o que o obreiro diz!

- O importante não é o que o “apóstolo” diz!

- O importante não é o que o padre diz!

- O importante não é o que o pastor diz!*

- O importante não é o que o teólogo diz!

O importante é o que Deus diz!!! O importante, e nisto está a nossa segurança eterna, é o que a Palavra de Deus diz!!! E ela nos ordena:

“Retirai-vos dela, povo Meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos” (Apocalipse 18:4).

Ela nos indica para onde devemos ir e que caminho devemos seguir, em meio aos enganos finais dos últimos dias:

“Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os Mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12).

* Digo isso na condição acadêmica e espiritual de quem cursou 3 faculdades (reconhecidas pelo MEC, incluindo Teologia) e uma Pós-Graduação em Ciências da Religião. Nesse caso não importa títulos ou formação acadêmica: o que importa é o conhecimento da Palavra de Deus – deixar Deus falar e o Espírito Santo agir...