Nos primeiros três séculos não existe nem a idéia de um Primado romano
Mais uma vez lembro que esta não é uma história do cristianismo e, sim, tão somente dos homens que ocuparam o cargo de bispos em Roma.
Existe uma dificuldade muito grande em escrever este tipo de história que estou tentando redigir porque o historiador católico se esforça para justificar e defender a posição do bispo de Roma, interpretando e até forçando o sentido de situações históricas e de documentos que chegaram até nós, não na sua forma original mas através de citações.
Veja, por exemplo, o verbete "Papado" na Enciclopédia Mirador, edição 1980, página 8530: "São Clemente I escreveu carta aos Coríntios em 95 ou em 96; esta é uma das primeiras provas do primado romano".
Ora, isso só pode ser verdade para quem escreveu o artigo; para outros que gostam de analisar e investigar, esta é uma grande mentira, pois trata-se de uma verdade preconcebida.
Por causa disso, temos centenas de conclusões apressadas que distorcem os fatos e dificultam a pesquisa.
Para provar a existência do Primado romano nos primeiros três séculos, citam-se três bispos: Clemente romano, Irineu e Cipriano.
Clemente foi bispo em Roma de f, 88 a 97 d.C. e tornou-se famoso por uma carta que escreveu aos cristãos de Corinto ("Carta de Clemente romano"; Editora Vozes; Petrópolis; 1971). Quem nos fala desta carta é Eusébio em "História Eclesiástica" (IV; 23,11).
Eusébio, que morreu em 340, isto é, pouco mais de 200 anos depois, nos diz que o bispo de Corinto leu essa carta aos fiéis e depois guardou-a como preciosidade por ter vindo de Roma... Duzentos anos depois!! Eusébio nos relata este fato... sem provar!...
Irineu, bispo da Igreja de Lyon que dependia do metropólito de Roma, e morreu em 208, isto é, cerca de 100 anos depois de Clemente romano, deixou escrito em "Adversus Haereses" (III, 3) que Clemente foi o terceiro sucessor de Pedro em Roma, após Lino e Anacleto, e enviou uma carta aos cristãos de Corinto.
O que há de interessante nessa carta de Clemente? De interessante há que ele faz uma comparação entre o exército romano e os grupos dos cristãos: para serem invictos como o exército romano, os cristãos devem observar uma severa disciplina eclesiástica onde deve haver uma hierarquia com chefes e subalternos.
Com efeito, escreve Clemente, "os apóstolos estabeleceram bispos e diáconos e deram instruções para que, após a morte deles, outros homens comprovados sejam eleitos presbíteros da comunidade" (47,6; 54,2; 57,1).
A interpretação dos teólogos católicos é que esta carta é o primeiro documento comprovante da supremacia universal (o Primado) do bispo de Roma. No entanto os teólogos luteranos e outros protestantes (S. Jáki; "Les tendences nouvelles de 1'ecclesiologie"; Her-der; Roma; 1957) não vêem nenhum Primado na carta de Clemente.
Clemente não era o único bispo que mandava cartas ou relatórios a outros bispos, tanto em forma de consulta, como em forma de esclarecimento. Aliás, como podemos ler no "Curso de Teologia Patrística", de F. A. Figueredo (Ed. Vozes; 1983; pág. 67), Clemente não faz alguma distinção entre "epíscopoi" (bispos) e "presbiterói" (anciãos); por "presbiterói" ele designa bispos e diáconos.
É evidente que nessa carta o termo "episcopói" significa sorvelhante, supervisor, sem a conotação de pessoa "consagrada" para um ministério específico, em oposição a "leigos" que seria o povo cristão não consagrado (como interpreta I. de la Potterie em "Nouvelle Revue Théblogi-que"; LXXX; 1958; pág. 840 ss.).
Não se deve esquecer que muitos bispos, nesta época, escreviam cartas a outros bispos, Diniz, bispo de Alexandria, escreveu cartas; até aos bispos da Espanha, resolvendo questões disciplinares, que eram aceitas por outros bispos (-Fleury; "Hist. Ecles"; VII; 56).
O mesmo fez Gregório, bispo de Neocesaréia, no século III e Ba-sílio, bispo de Cesaréia; e suas intervenções eram aceitas pelos demais bispos.
Quando nos fins do século III o império foi dividido em: Oriente, Illíria, Itália e Gallia, constituíram-se os patriarcados de Roma, Antioquia e Jerusalém; mas cada bispo estava sujeito à assembléia dos bispos de seu patriarcado.
Mas a grande importância da carta de Clemente aos Coríntios, se não é a prova do Primado, como queria B. Bartmann no seu Tratado de Teologia (vol. II; pág. 425 e 483) e os demais teólogos católicos, está no fato que ele dá início à formação do presbiterado, como prova muito acertadamente Ernesto Renan ("História das




