22/12/2009
10/12/2009
05/10/2009
A INQUISIÇÃO PORTUGUESA: TESTEMUNHOS E HISTÓRIAS
Ninguém lhe escapava – uma vez que cheirasse a dinheiro aos inquisidores ou lhe fizesse ciúmes por seus merecimentos ou honras. Mesmo eles não descansavam de erguer, a grandes alturas, inculcas do seu poderio e grandeza, sendo um dos meios o saber-se por todo o Reino que eles tinham nos seus cárceres gentes de importância.
O Dr. António Baião director do Arquivo da Torre do Tombo, dedicou anos ao estudo da Inquisição em Portugal, Brasil e Goa. Nos seus estudos faz menção de vários processos da Inquisição, nos quais figuraram como réus vários homens de letras e de ciências de Portugal.
Entre outros, sem falar já do muito conhecido, caso de António José – o Ju
deu, foram condenados pelos inquisidores de Lisboa, Coimbra ou Évora, o cónego e poeta Baltazar Estaco, o Dr. António Homem, Fernando de Pina, filho do cronista Rui de Pina, o humanista e poeta Diogo de Teive, o matemático André de Avelar, o jurisconsulto Francisco Vaz de Gouveia, o engenheiro e inventor Bento de Moura Portugal, o Cavaleiro de Oliveira, o poeta dos Ratos da Inquisição, Serrão de Castro, o poeta Francisco Manuel do Nascimento, os netos de Pedro Nunes, que foi mestre do cardeal D. Henrique, de D. João de Castro e de D. Sebastião, etc.Dois dos mais perseguidos foram o grande historiador Damião de Góis e o padre António Vieira.
Para se ter uma pequena dimensão do valor de Damião de Góis, bastará reproduzir as seguintes palavras do Dr. António Baião: “A sua personalidade é deveras complexa. Político, como feitor em Flandres, soube representar lá fora o nome português e granjear fama europeia; humanista, as suas obras e as suas cartas em latim podem pôr-se a par das melhores
da Renascença; historiador, as suas crónicas são ainda hoje consultadas com proveito e o seu nome figura com a maior justiça entre os dos nossos melhores clássicos quinhentistas.”Durante a sua ausência no estrangeiro exerceu missões de confiança junto do rei de Dinamarca, conviveu com Melâncton, Lutero e Erasmo, e frequentou as Universidades de Lovaina e de Pádua. Um belo dia, é surpreendido pela notícia de que o seu livro sobre costumes e religiões do rei da Abissínia, escrito em latim e impresso em Antuérpia, fora impedido de circular em Portugal. Queixa-se; o inquisidor-geral, ao tempo o cardeal D. Henrique, dá-lhe explicações, mas ne
m estas o satisfazem nem a Inquisição o esqueceu um momento mais.Delatou-o depois o jesuíta Simão Rodrigues como discípulo de Erasmo, como luterano e até como disputando sobre a certeza da graça. Mas muito depois disso, o próprio cardeal D. Henrique encarregou-o de escrever a Crónica de D. Manuel, tendo sido nomeado guarda-mor da Torre do Tombo.
Em 1571, o próprio genro vem depor contra ele, já lançado nos cárceres secretos. Além das delações já feitas, comprometem-no também outras pessoas, incluindo uma sobrinha. Ele só pede que o despachem, porque está com mais de setenta anos, com nove meses de cárcere, sem forças para se ter nas pernas e cheio de usagre e sarna por todo o corpo!
Pede um livro em latim, para distrair o pensamento, pois está “apodrecendo de ociosidade”. Pois nem ao menos isso lhe concedem…
Finalmente, em Outubro de 1572, vinte meses depois de preso, e ao fim de dezoito vezes ouvido, leram-lhe a sentença, na qual os inquisidores o mandavam abjurar dos seus erros heréticos perante eles e o condenavam a cárcere penitencial perpétuo, no sítio para onde fosse mandado pelo cardeal D. Henrique. Saiu em Dezembro para o Mosteiro da Batalha. E assim, um homem de “reputação europeia” – como escreve o Dr. António Baião – esteve vinte meses humilhado em desespero atroz “à mercê de pigmeus de que a História só fala para os acusar das carnes inocentes que fizeram queimar.”
Em 1665, coube a vez ao padre António Vieira, preso nos cárceres da Inquisição de Coimbra.
Depois de denunciado por um colega seu da Companhia de Jesus e lente no Colégio de Santo Antão, Martim Leite, e pelo prior da Igreja da Madalena, Jerónimo de Araújo, foi encarcerado, sendo-lhe atribuídas culpas de judaísmo, por denúncias de Manuel Ferreira e do Dr. Fernão Sardinha, médico da Câmara de El-Rei, tendo este chegado a afirmar ter-lhe ouvido dizer “que para conservação do Reino era necessário admitir nele publicamente os Judeus.”
Foi interrogado em 21 de Julho de 1663, em 25 de Setembro do mesmo ano e em 20 de Outubro. Neste último interrogatório, segundo rezam os autos, citados pelo Dr. António Baião “…logo foi mandado pôr de joelhos e se persignou e benzeu, e disse a doutrina cristã, a saber: o Padre-Nosso, Ave-Maria, Creio em Deus Padre, Salve-Rainha, os mandamentos da Santa Madre Igreja – e terminal: e tudo disse bem!!”
E diz o Dr. Baião: “Ao padre António Vieira,, ao grande orador das coisas sagradas do século XVII, faziam-se na Inquisição perguntas aviltantes e deprimentes do seu extraordinário saber, das suas crenças tão enraizadas e fixas… Cinquenta e cinco anos de altos serviços ao País, cinquenta e cinco de tanta dedicação pela ciência, que o colocavam num lugar privilegiado, eram examinados –em doutrina cristã!”
Depois de 8 de Agosto de 1666, é interrogado em vinte e oito audiências!... E o Conselho Geral determinou que contra ele se procedesse – como contra pessoa de cuja qualidade de sangue não consta ao certo!!!
Em 23 de Dezembro de 1667, ou seja depois de vinte e seis meses de cárcere, foi proferida a sentença, contra o maior vulto de Portugal de então, conforme se exprime o ilustre autor dos Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa – privando-o para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar e o mandavam ser recluso no Colégio ou casa de sua religião que o Santo Ofício lhe assinasse, de onde, sem ordem sua, não sairia… e que por termo por ele assinado se obrigasse a não tratar mais das proposições de que foi arguido no decurso da sua casa, nem de palavra nem por escrito, sob pena de ser rigorosamente castigado!
É inacreditável!
Vejamos estas palavras do Dr. Baião: “Assim procedia a Inquisição com um religioso da Companhia de Jesus, teólogo, e mestre de Teologia, Pregador de El-Rei de Portugal, e ministro seu na Cúria Romana e outras cortes, confessor nomeado do Senhor Infante, superior e visitador-geral das missões do Maranhão com os poderes de seu geral, e tão benemérito da Igreja que durante dez anos se empregou na conversão dos gentios, tendo tido muitas e muitas vezes disputas com os hereges em França, Holanda, Inglaterra e noutras partes.
Assim se vexava, ultrajava e condenava, por instigação de seus émulos, o grande orador sagrado que na nossa história literária se chamou padre António Vieira!”
Assim se vexava, ultrajava e condenava, por instigação de seus émulos, o grande orador sagrado que na nossa história literária se chamou padre António Vieira!”
24/09/2009
INQUISIÇÃO EM PORTUGAL: UM ECO COM RETORNO
- Conhecem-me muito mal; desde o primeiro dia que eu disse a verdade e nada mais tenho que dizer! Tapem-me os olhos para que eu não me veja, estando nua!...
Ataram-lhe os braços un ao outro, com uma corda. E ela disse:
- Mesmo que aqui me tirem a vida, morrerei como cristã!... Redentor do Mundo, Jesus, adorado será Tu na cruz eu adoro-Te!...
De novo admoestada para que diaga a verdade, responde:
- Já está dita.
É mandada deitar na mesa do tormento. E depois de deitada, disse:
- Ai, senhores! Porque acreditais em mentirosos?... Senhor! Eu Te confesso e adoro e dai-me forças na tribulação.
Começam a ligá-la ao tormento e adoestam-na a que diga a verdade.
- Como eu Te creio Senhor, assim me ajudes – disse ela.
Perguntar-se-lhe se quer que lhe sejam lidas as perguntas do processo, a fim de avivar a memória.
Respondeu que as tem bem estudadas, que não quer que lhas leiam, e que, como Deus sabe que são falsidades, a livre, e que fizessem o que quisessem.
Foram-lhe lidas as perguntas. Respondeu que já tinha respondido a cada uma e dito a verdade.
São-lhe mandadas apertar as cordas dos braços. Quando se lhe começa a apertar o cordel do braço direito, diz:
- Que quereis que eu diga? Quereis que eu diga falsidades?
Disseram-lhe que não dissesse senão a verdade!
- Não pequei, Senhor meu, Tu bem o sabes! Estou inocente! Já disse a verdade!... Parece que me quereis matar!
Foram-lhe apertando as cordas do braço esquerdo.
No meio de gritos de dor, disse:
- Não mateis as gentes, deixai-as viver!... Olha que me afogo… tenho os braços sobre o estômago! – e deu um grande grito.
É admoestada que diga a verdade, se não quer continuar sujeita a tamanho sofrimento. Responde que já a disse!
- Pois não me confessaria?! A Ti, meu Deus, me confesso! – gemeu a mártir.
Foram-lhe mandados apertar os cordéis das pernas; e sendo admoestada para que dissesse a verdade, disse que já a tinha dito. E, aos gritos, acrescentou:
- Porque acreditais em mentirosos?
Dão os inquisidores ordem para que lhe seja atada a cabeça com uma corda à mesa do tormento e lhe seja despejado um jarro de água sobre a cara, boca e nariz.
Tendo-se-lhe dito que dissesse a verdade, perguntou:
- Qual é
mais para recear, o fogo do Inferno ou a água?Começou-se a deitar a água até despejar o primeiro jarro. Quando pôde falar, disse:
- Matam-me sem culpa!
Foi mandado despejar outro jarro, e admoestam-na para que diga a verdade. Responde: - que já disse a verdade.
Continuou a despejar-se água; e quando se parou por um pouco, disse:
- Oh cruel verdugo! – e não disse mais nada.
Acabou de se despejar o jarro, e, intimada a dizer a verdade, disse: que assim Deus a livre, como tem dito apenas a verdade!
Por ser tarde, os senhores inquisidores mandaram suspender o tormento, com protesto de continuar depois, se a vítima persistisse em… não dizer a verdade!
Qualquer crente na Bíblia, pode perceber que esta senhora que é torturada, não o é por crer nas Sagradas Escrituras. Outro motivo será…cruel é ferir, aviltar e matar os que são da sua própria fé.
Pôde isto acontecer em Portugal? Sim!
Pode isto voltar acontecer em Portugal? Sim!
Pode isto acontecer no Brasil? Sim!
Ao acontecer, não será aos da própria crença mas àqueles descritos em Apocalipse 14:12: “Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.”
Será que a tua relação com Jesus hoje te dará forças para viver se necessário, tal experiência, sem negar o Senhor?
NAS QUATRO COVAS DAS FERAS
E era assim, por toda a parte: nos cárceres secretos do (1ª Cova) Rossio, em Lisboa; nas covas tenebrosas, ocultas no (2ª Cova) Largo do Marquês de Marialva, em Évora; nos antros ignominiosos da Inquisição de (3ª Cova) Coimbra e nas (4ª Cova) masmorras infectas de Goa!Porque a Inquisição atravessou com os seus furores os mares e assolou a América e a Ásia. A Espanha vomitou a Inquisição no México. Portugal instalou em 1561 o tribunal sinistro em Goa, independente da Inquisição suprema da Metrópole. Foi lá que exerceram as altas funções divinas da Santa piedade, como inquisidores-gerais das Índias, entre outros, Bartolomeu da Fonseca e Frei Gaspar de Melo.
O processo ali era igual ao da Europa: mas os cárceres eram mais imundos, os desgraçados tinham ainda menos esperança de escapar aos horrores da sua triste sorte, e estavam os perseguidores mais seguros da sua impunidade. E raro era o ano em que não alumiasse sinistramente as plagas de Goa o clarão das fogueiras da Inquisição, acesas no Campo de S. Lázaro!
Nas quatro covas das feras do Santo Ofício se aterrorizava e explorava a humanidade. Dali, a Igreja de Roma perpetrava o roubo, o confisco e o assassínio. À vista dessas covas, feitas pelos modelos das de Sevilha, Toledo e Granada, Valladolid, Córdova e Conca, fizeram os papas os negócios mais infames! Ora vendiam por bom dinheiro a absolvição às caravanas de hereges que afluíam a Roma para lha comprarem.
Ora esgotado esse farto manancial, estabeleciam a faculdade de recusar, pela qual o herege podia queixar-se da Inquisição.
Neste caso, quem
mais dava, mais direitos tinha. Se o herege era rico e pagava mais do que os inquisidores, o papa recusava a estes o direito de julgar; se o inquisidor mandava a Roma mais dinheiro do que o herege, o papa autorizava-o a exercer as funções de julgador. Ora, como o inquisidor confiscava os bens e, por isso, se tornava capaz de pagar mais do que o confiscado, este havia de ser com certeza degolado “pela Inquisição ou pelo padre-santo”. Ainda o papa engendrou outro meio de apanhar dinheiro e que lhe deu magníficos resultados: - outorgou para si próprio o direito de solicitar a reabilitação dos hereges. Como se sabe, os filhos e os netos dos condenados na Inquisição ficavam desonrados e incapazes do exercício de qualquer cargo. Com dinheiro, porém, reabilitava-se o morto e com ele os seus herdeiros. E era assim que os cofres do "vigário de Cristo" na Terra se enchiam de ouro que os hereges lá iam despejar para a compra da reabilitação!...Nas quatro covas das feras do tribunal infame, cujos familiares eram capazes dos crimes mais espantosos, diante da impassíveis atroz dos inquisidores, tremiam martirizadas, as carnes dos hereges nus; rompiam, longe da luz do Sol e sem que alguém os ouvisse fora das paredes da casa dos tormentos, os fritos lancinantes da dor dos desgraçados, amarrados ao potro, torturados pela água e pelo fogo, ou nos tratos de polé; sucederam todos os dias e durante séculos, “todos os horrores da mais cruel, da mais brutal, da mais repugnante, da mais bárbara das instituições que o fanatismo engendrou na humanidade!”
23/09/2009
A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL: O REI MAGNÂNIMO
Um século antes, em 1620 era atormentado Baltasar Estaco, entre outras coisa, por se lhe terem metido na cama, várias vezes, para o aquecerem, mulheres-donzelas, despidas!... Nas covas das quatro inquisições de Portugal continuavam a quebrar-se os ossos aos hereges… E D. João V, o que fez fabricar em Roma a capela de S. João Baptista da Igreja de S. Roque, o monarca devoto, que por tanta devoção recebeu do papa o título de fidelíssimo (!), o que foi tão magnifico em coisas de religião, além de viver amancebado com a Madre Paula, enchia-se de dormir, perfumado de incenso, entres as carnes provocantes de todas as freiras de Odivelas!
"Em 1715, aceitando convite do papa Clemente XI, fez armar uma frota para defender Corfu. Foi comandada por Lopo Furtado de Mendonça, conde do Rio Grande. Tal socorro foi impedido pelos ventos de chegar a tempo, voltando a entrar na barra do Tejo. Obteve porém grande vitória no ano seguinte no cabo de Matapão. A criação da basílica Patriarcal, em Lisboa, em 1717, se deve muito a tal êxito. Roma, aliás, sempre foi para D. João V o verdadeiro fiel da balança européia, Portugal sendo um país em que Estado e Igreja continuavam a ser um bloco homogêneo. Houve conflito em 1720, melhorado em 1730 com a eleição de Clemente XII e o reatamento diplomático. Em 1747 D. João alcançou grande vitória ao lhe ser concedido o título de «Fidelíssimo» pela Cúria."
Subscrever:
Mensagens (Atom)